Água, Alimento e Energia: vértices em risco no Brasil

Por Luiz Carlos de Brito Lourenço

No âmbito do “Seminário Internacional sobre Ambiente e Sociedade: Desafios atuais e trajetórias de mudança”, realizado nos dias 2 e 3 de Março no ICS da Universidade de Lisboa, quis a organização da Associação Portuguesa de Sociologia abrir espaço para um painel sobre a “Governança dos Recursos Hídricos no Contexto Brasileiro”. As comunicações selecionadas partiram de três projetos de investigação de doutoramento ainda em andamento. Foram seguidas de uma síntese deste autor sobre os riscos que pairam sobre Água, Alimento e Energia, três vértices que conformam um espaço de análise de eventos que formam faces interligadas, inacabadas num infinito “poliedro de inteligibilidade” de Michel Foucault. (“Mesa redonda de 20 de Maio de 1978” in “Estratégia, Poder-Saber”, Forense, 2a ed., 2006, pág. 340) .

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Urban Islands In Times Of a Pandemic Or Boredom As Priviledge

By Diana Soeiro

My main research activity is developed within the ROCK project, funded by the European Union, under the Horizon 2020 programme, involving 13 European cities. Briefly, the project focuses on researching how can urban regeneration be promoted through cultural heritage. In Portugal it features two hosts, ICS-UL and Lisbon’s City Hall, promoting a methodology that encourages a close dialogue between the university and public institutions, known as action-research. The goal is that both institutions inform each other so that research translates into action, and action informs research. The selected area where the action-research takes place is in the neighbourhoods of Marvila and Beato (Lisbon). Since the beginning of the project, in 2017, this is the territory where the team has been focused. Continuar a ler

O Brasil do coronavírus e as mortes que se poderiam evitar

Por José Gomes Ferreira

Quando em 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia do coronavírus (COVID-19), o Brasil despertou rapidamente para a ameaça mundial e colocou em prática diversas medidas. Foi dada atenção especial aos grupos de risco, com a recomendação de isolamento social de pessoas com mais de 60 anos ou com doenças crónicas, que deveriam passar a adotar o regime de teletrabalho e, consequentemente, deixar de frequentar locais públicos ou de aglomeração de pessoas, a fim de reduzir o risco de contágio. Na sexta-feira, dia 20, foi aprovado o Projeto de Decreto Legislativo nº88, de 2020, que reconhece o estado de calamidade pública no Brasil motivado pela COVID-1.9. Continuar a ler

Governação Ambiental: O que é que os não-humanos fariam?

Por João Afonso Baptista

A certa altura, Thomas e o departamento onde trabalha foram invadidos por muitas tarefas administrativas. Essas tarefas trouxeram desafios distintos e exigiam muito trabalho. A desorientação, o cansaço e o terror da improdutividade instalaram-se na sua equipa. Thomas e os seus colegas tinham de fazer alguma coisa para resistir a tamanha sobrecarga administrativa. Empregar mais pessoas? Contratar terceiros? Renunciar às suas novas responsabilidades administrativas? Em vez disso, Thomas aproveitou o momento difícil em que vivia para repensar a forma de trabalhar da sua equipa, e decidiu implementar uma nova forma de organização no departamento. Implicaria as mesmas pessoas, mas as atividades e os processos de tomada de decisão iriam mudar radicalmente. Para tal, Thomas adotou e pôs em prática a forma como se governa noutros locais e por outros seres. Ele adotou e pôs em prática a forma de governar das abelhas nas colmeias. Numa palestra que deu em 2011, Thomas D. Seeley revelou qual a questão que passou a surgir com mais frequência no Departamento de Neurobiologia e Comportamento da Universidade Cornell, onde trabalha, sempre que têm de resolver problemas administrativos: “O que é que as abelhas fariam?” Continuar a ler

BEACON: Coruche and its coal ovens – far from being stuck in a time warp

By Alexandra Bussler

The municipality of Coruche lies about 80 km northeast of Lisbon in the district of Santarém, in Leziría do Tejo. Despite its only 20.000 inhabitants, it is one of the largest municipalities in Portugal, stretching across 1.120 km². Due to its vast cork tree plantations, Coruche has come to call itself the cork capital of the world: as the largest cork producing district it fabricates 5 million corks every day. Continuar a ler

Desenhar sobre catástrofes: recordar o passado, imaginar o futuro

Por Ana Sofia Ribeiro

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Mensagem de uma criança italiana sobre o período de isolamento imposto pelo COVID-19. Fonte: Francesca Bocchia

Um estado de alerta poderá não ser para muitos a melhor ocasião para recordar outras catástrofes. Precisamos de pensar em dias melhores, e num futuro que possamos abraçar sem medo. O atual estado de suspensão e recolhimento tem resultado num maior apreço pelas manifestações artísticas enquanto expressão de liberdade, reconhecendo o seu valor enquanto veículo de emoções e experiências individuais e coletivas. Assim, este contributo dá conta de um projeto de investigação baseado em desenhos sobre os incêndios de 2017, feitos por crianças habitantes de um dos territórios afetados. Continuar a ler

“International Seminar on Environment and Society”: sociólogos em debate face à emergência ambiental

Por Ana Horta

A perceção pública dos desafios ambientais tem ganho uma dimensão enorme nos últimos tempos. Isto deve-se em grande medida à inclusão das alterações climáticas nas agendas mediáticas, com as suas repercussões em eventos climáticos extremos, assim como as suas vastas implicações na produção e consumo de energia e de alimentos ou ainda na perda de biodiversidade. Além disso, recentemente outros problemas ambientais têm também captado muita atenção a nível internacional, como é o caso da utilização de plásticos. Neste contexto, cidadãos, decisores políticos, agentes dos media, cientistas e outros têm-se movimentado de formas por vezes marcantes e inéditas, como aquando do reconhecimento do estado de emergência climática e ambiental pela ONU, pelo Parlamento e pela Comissão Europeia ou pelo Papa, pelo anúncio de políticas profundamente ambiciosas (como é o caso da descarbonização da economia) ou ainda do movimento internacional de estudantes em greve à escola pelo clima. Continuar a ler

Planning as a profession: Between individual ethics and public interest

Por André Pereira

The multidisciplinary context that caracterizes planning has always made it difficult to define a common identity of the planner, and a set of shared values for the profession. One of the greatest challenges in theory (and for its translation to practice) has been to define clearly the ethical values and logics of decision in planning activites. For that reason, the concept of ‘public interest’ has been called for as the most appropriate justification for decisions in planning. However, the use of public interest to define the whole objectives of a profession raises questions that have never been convincingly resolved, and that seem essential to return to when considering the responsibility of planning within the climate change discussion. Continuar a ler

Pensamento contraintuitivo em ciência: a propósito de um livro de um historiador-antropólogo que analisa a política a partir da geografia

Por João Ferrão

Olhando por um telescópio ou por um microscópio vemos realidades distintas (uma galáxia e uma célula, por exemplo) ou diferentes facetas de uma mesma realidade? O mesmo se poderá perguntar em relação aos vários instrumentos com um alcance de visão e um poder de resolução entre esses dois extremos, como os satélites de recolha de imagens, os binóculos, o olho humano, as lupas ou as objetivas de máquinas fotográficas. Talvez a resposta mais simples seja dizer que vemos realidades distintas se as consideramos de modo isolado, mas componentes de uma mesma totalidade se interpretadas de uma forma relacional e multiescalar.

Qual é a pergunta equivalente para os cientistas sociais? Não temos telescópios, mas produzimos metateorias. Não recorremos a microscópios, mas desenvolvemos trabalhos a uma escala micro: indivíduos, objetos, espaços de uma habitação, etc. E também podemos usar instrumentos intermédios, desde as teorias de médio alcance aos estudos de caso do mais diverso tipo. Continuar a ler

YOON [caminho]

Por Pedro Figueiredo Neto

YOON | jɒn |, que em idioma wolof pode significar estrada, caminho ou percurso, é um projecto de longa metragem documental, contando também com uma  componente de investigação e  projecto artístico.

Rodado entre Portugal e o Senegal, atravessando Marrocos e a Mauritânia, YOON lança um olhar sobre determinadas mobilidades e actividades económicas entre Norte e Sul, e que envolvem não só bens e pessoas, mas também informações e ideias. Tudo isto é revelado através dos percursos de Mbaye S., um routier (denominação usada para referir os indivíduos que conduzem carros usados com fins comerciais) que, a cada mês, percorre os mais de 4000 Km de estrada que separam os dois lugares a que chama casa. Continuar a ler