Fazer da necessidade virtude: atividades participativas em tempos de COVID-19

Por: Helena Vicente, Ana Delicado, João Estevens e Jussara Rowland

Nos últimos anos tem crescido a noção de que não basta “ensinar” ciência ao público para estimular atitudes positivas e de confiança. O que as estatísticas demonstram é que “um pouco de conhecimento pode ser uma coisa perigosa”: são as pessoas com um nível intermédio de conhecimentos de ciência que demonstram atitudes mais negativas, adotando comportamentos como recusar vacinar os filhos, não reconhecer as causas humanas das alterações climáticas ou preferir tratamentos alternativos à medicina convencional.

Por isso, a ideia inicial do projeto PERSIST_EU, projeto Erasmus+ financiado pela Comissão Europeia, coordenado pela Universidade de Valência (Espanha) e com a participação de equipas da Alemanha, Eslováquia, Itália e Portugal, de desenvolver uma atividade formativa para aprofundar o conhecimento e a opinião dos estudantes europeus sobre ciência, deu lugar a uma abordagem mais participativa, que batizámos como “Science Camp” (SC).

Os SC teriam a participação de 100 jovens estudantes universitários em cada país, que se reuniriam numa tarde para visionar filmes curtos sobre alterações climáticas (AC), vacinas (VAX), organismos geneticamente modificados (OGM) e medicinas alternativas e complementares (MAC), fazer perguntas a especialistas nestes temas e debater entre si os prós e contras de diversos aspetos científicos, incluindo os modelos climáticos, as probabilidades de efeitos secundários das vacinas, o principio da precaução no uso de OGM ou o efeito placebo nos medicamentos e tratamentos alternativos. Antes e depois do evento os estudantes seriam convidados a preencher um questionário sobre estes temas, de modo a aferir como as atitudes, crenças, perceções e conhecimentos variam com a participação no SC.

Os SC estavam programados para o segundo semestre de 2019/20. Já com as inscrições abertas, em fevereiro de 2020, aumentava o número de inscritos, mas também crescia o número de casos de COVID-19 na Europa. As restrições foram aumentando até que, em março, chegou o confinamento, e se tornou inevitável repensar toda a estrutura dos SC.

Figura 1 – Cartaz (inicial) de divulgação

O online como resposta à pandemia

A COVID-19 trouxe impactos à escala global, afetando também os projetos de investigação em curso e obrigando os investigadores a adaptar as suas estratégias. Assim, surgiram-nos muitas questões sobre como prosseguir o projeto. Consideraram-se diferentes hipóteses: cancelamento, adiamento, ou migração para o espaço online.

Sem garantias de que a pandemia estivesse resolvida durante o período de duração do projeto, acordou-se uma nova estrutura com um SC por tema, que poderia ser presencial, online ou misto. Em Portugal, a opção recaiu em organizar quatro SC Virtuais (SCV), com a duração de 90 minutos. Esta transição para o virtual permitiu-nos alargar o público-alvo para estudantes de todo o país.

Depois da inscrição, os/as participantes receberam um e-mail com o link para o vídeo do tema escolhido e foram convidada(o)s a enviar perguntas para a especialista convidada: no caso das alterações climáticas, Rita Cardoso (Instituto Dom Luiz, Faculdade de Ciências), das vacinas, Adriana Gaspar Rocha (Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública), dos OGM, Leonor Morais Cecílio (Instituto Superior de Agronomia) e das medicinas alternativas e complementares Joana Almeida (Universidade de Bedfordshire, Reino Unido).

O VSC iniciava-se com a intervenção da especialista, dando resposta a estas perguntas (30 minutos). Em seguida, era lançada uma frase para discussão, sendo a(o)s participantes divididos em salas com grupos de aproximadamente oito participantes, onde debatiam argumentos a favor ou contra uma afirmação relacionada com o tema (30 minutos). Na última fase do SCV, a(o)s participantes regressavam ao plenário e apresentavam os argumentos de cada grupo, seguindo-se um comentário da especialista e uma ronda aberta para as últimas perguntas e respostas (30 minutos).

Os primeiros três SCV realizaram-se em maio de 2020, mas apenas foi possível agendar o último SCV (medicinas alternativas e complementares) para setembro. No total, conseguimos assegurar a participação de 100 estudantes, que completaram todas as fases do projeto. As desistências ao longo das sessões foram pouco significativas. O debate com as especialistas foi animado e os argumentos encontrados criativos e bem justificados, apesar de muitas vezes a(o)s estudantes não se identificarem com a posição que tinham de defender.

Figura 2 – SCV sobre MAC (24 de setembro de 2020)

Resultados preliminares

Uma análise preliminar dos resultados indica que é possível notar algumas mudanças nas respostas dos estudantes antes e depois dos SCV. Os estudantes mostraram níveis de conhecimento mais elevados relativamente a alterações climáticas e vacinas, temas amplamente discutidos nos media portugueses e para os as medicinas alternativas, temas mais polarizados e sobre os quais os participantes sentiram não ter informações científicas suficientes.

Este exercício demonstrou que é possível fazer atividades participativas através de plataformas online, ainda que enfrentando as limitações apontadas pelo Roberto Falanga no último post deste blogue. Por um lado, permitiu expandir e diversificar os participantes envolvidos, em termos geográficos e disciplinares. Por outro, proporcionou um envolvimento mais livre e prolongado no tempo: a(o)s estudantes escolheram o(s) tema(s) que mais lhes interessavam, tiveram tempo para ver os vídeos e pensar em perguntas que estes lhes suscitavam. Para além disso, a interação com a especialista ajustou-se mais aos interesses e inquietações da(o)s participantes.

Todavia, temos de considerar que há dinâmicas que só a interatividade presencial poderia ter proporcionado e que não foram possíveis no SCV. Igualmente, em termos de organização, o novo desenho do SCV exigiu um maior acompanhamento por parte da equipa, de modo a assegurar que a(o)s participantes se mantinham envolvidos nas diferentes fases, desde a inscrição até ao preenchimento do segundo questionário, após a realização do evento.


Ana Delicado é investigadora auxiliar do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Trabalha em estudos sociais da ciência. ana.delicado@ics.ulisboa.pt

João Estevens é doutorando em Global Studies (Universidade Nova de Lisboa). Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais – Globalização e Ambiente. Licenciado em Economia e em Ciência Política e Relações Internacionais. Bolseiro de investigação do ICS-ULisboa no projeto H2020 CONCISE – Papel da comunicação na perceção e crenças dos cidadãos europeus sobre ciência. joao.estevens@ics.ulisboa.pt

Jussara Rowland é socióloga e colaboradora no projeto CONCISE – Papel da comunicação na perceção e crenças dos cidadãos europeus sobre ciência, financiado pela Comissão Europeia ao abrigo do programa Horizonte 2020.  jussara.rowland@ics.ulisboa.pt

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