A venda de produtos alimentares de origem rural em lojas especializadas de Aveiro, Lisboa e Porto

Por: Alexandre Silva, Elisabete Figueiredo, Monica Truninger

O termo quality turn tem sido usado para designar uma crescente insatisfação dos consumidores com os produtos de origem industrializada e de venda em massa, e um aumento de procura e criação de soluções de diferenciação ao longo da cadeia de abastecimento. No domínio alimentar essa transição tem incidido em pontos tão diferenciados como os métodos de produção e transformação alimentar, a dimensão das cadeias de distribuição, e mesmo os formatos de retalho nos quais os produtos são vendidos ao consumidor. Em Portugal essa “viragem” tem-se manifestado na procura de produtos alimentares em categorias diversas como o gourmet ou o biológico. Além disso, tem ganho visibilidade nos últimos anos uma multiplicação da oferta retalhista urbana de pequena dimensão, sobretudo no sector alimentar. Estas são algumas das transformações que têm sido analisadas no quadro do projeto STRINGS, apresentado num texto anterior deste blogue, designadamente no que respeita às potenciais oportunidades que estas transformações podem abrir para a criação e reativação de ligações entre o rural e o urbano, e os seus possíveis efeitos sobre o desenvolvimento rural.

Deste ponto de vista, é importante conhecer melhor esta oferta retalhista, desde logo identificando e analisando as lojas localizadas em meio urbano que vendem produtos alimentares com origem nos territórios rurais do país. Esta tarefa foi empreendida no quadro do projeto STRINGS nas três cidades escolhidas para análise, Aveiro, Lisboa e Porto, procurando-se não só produzir uma caracterização, como também uma tipologia que pudesse constituir-se como um dos principais critérios para a seleção de lojas a integrar nos estudos de caso em fases subsequentes do projeto. Para esse efeito foi aplicado um inquérito por questionário entre Junho e Agosto de 2019 a um conjunto de 119 lojas (entre 193 identificadas inicialmente, a partir do cruzamento de várias bases de pesquisa) nas referidas cidades, incidindo sobre três temas principais: a caracterização geral da loja (incluindo perguntas relativas à data de fundação, tipo de empresa e nº de trabalhadores), produtos e serviços oferecidos (produtos de origem rural mais vendidos, principais regiões de proveniência, venda de  produtos de origem certificada ou ainda os serviços disponibilizados pela loja além da venda no local), e caracterização geral dos clientes (idade, género e nacionalidade da maioria dos clientes da loja).

Figura 1 – Logotipo do projeto STRINGS. Logo design: Liliana Eusébio

O processo de identificação das lojas que antecedeu a realização do inquérito foi acompanhado de um mapeamento da sua localização que tornou visíveis algumas zonas de maior densidade, correspondentes em alguns casos a áreas das cidades que se caracterizam por maior procura turística. Os resultados do inquérito apontam, aliás, também no mesmo sentido, já que cerca de 25% dos inquiridos indicam os consumidores estrangeiros como os mais frequentes, e cerca de 33% referem ter tantos clientes portugueses como estrangeiros. A possibilidade de que o aumento do turismo tenha tido impactos fortes neste tipo de retalho é também sugerida pelos dados relativos à data de fundação das lojas. Ainda que a variação desta cronologia na amostra compreenda mais de 100 anos, a maioria delas tem uma data de fundação posterior a 2010 (81% em Aveiro, 68% em Lisboa e 58% no Porto). Este dinamismo tem correspondido, segundo algumas análises que têm incidido em particular sobre Lisboa, a uma reconfiguração de algumas das paisagens retalhistas ou retailscapes de zonas da cidade nas quais os espaços de venda e consumo alimentar são relevantes.

Figura 2 – Compotas. Créditos: Elisabete Figueiredo

Mas o aspeto mais significativo a destacar entre os resultados globais do inquérito são as três dimensões de ligação destas lojas aos territórios rurais: as regiões de proveniência, a certificação de origem e a importância da compra direta aos produtores. A maioria das lojas inquiridas vende produtos de múltiplas regiões portuguesas, apesar de algumas proveniências serem mais frequentemente identificadas (as NUTSII do Centro, Norte, Alentejo e Lezíria são as mais referidas), e de existirem cerca de 19% de lojas dedicadas exclusivamente a produtos (incluindo por vezes também produtos não alimentares) de apenas uma região. Muito significativos são os resultados que apontam para mais de 90% das lojas venderem produtos alimentares de origem certificada, sendo que 70% vende mais de cinco produtos deste tipo, e também os que apontam para apenas 10% das lojas recorrerem a fornecimento exclusivamente através de intermediários, enquanto que quase 40% obtém os seus produtos diretamente através do produtor. 

Figura 3 – Hortícolas. Créditos: Elisabete Figueiredo

Outro ângulo sobre os dados produzidos pelo inquérito foi a identificação de tipos de lojas, que se realizou através de uma análise de clusters a partir das respostas sobre os produtos mais vendidos de cada loja. Os três tipos são definidos primordialmente pelas diferentes combinações de produtos alimentares de origem rural que vendem, mas existem também algumas especificidades e tendências de cada tipo no que diz respeito a dimensões como a amplitude e diversidade de proveniências ou o tipo de serviços que oferecem.

  • Vinho: pequeno cluster (11,5%), apenas identificado em lojas de Lisboa e do Porto, que corresponde a garrafeiras ou lojas com uma componente de maior preponderância de vinho e bebidas, enquanto produtos mais vendidos. Vendem na sua grande maioria produtos de múltiplas regiões do país.
  • Proveniência rural: cluster de grande dimensão (43,4%) que se caracteriza pela maior proporção de venda de produtos de uma única região, face aos outros grupos, assim como pela maior proporção de lojas que vendem carne e lojas que vendem queijos.
  • Generalista: o maior grupo (45,1%) é caracterizado pela maior presença de lojas que vendem ”mel, compotas e conservas”, “vegetais e derivados” e “azeite”. É também neste que figura a maior proporção de lojas que organizam eventos de degustação de alimentos.

O destaque de origens específicas, a venda de produtos certificados e a ligação direta ao produtor sugerem que as lojas utilizam, por vezes cumulativamente, várias estratégias de ligação aos territórios rurais. Conhecer as motivações e características dessas estratégias, tendo em conta as possíveis diferenças entre os tipos de loja aqui descritos, é uma das questões que têm sido consideradas nas fases subsequentes do projeto STRINGS, sobretudo a partir de metodologias mais intensivas como as entrevistas aos responsáveis pelas lojas e a análise de materiais promocionais.


Alexandre Silva, Sociólogo. É membro da equipa do STRINGS e investigador convidado no projeto SafeConsume (Horizonte 2020).
Email: alexandre.silva@ics.ulisboa.pt
Webpage: https://www.ics.ulisboa.pt/pessoa/alexandre-silva

Elisabete Figueiredo, Socióloga e Professora Associada com Agregação do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro e Investigadora Principal do projeto STRINGS.
Email: elisa@ua.pt
Webpage: https://www.ua.pt/pt/p/10311090

Monica Truninger, Socióloga e coordenadora do Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Co-Investigadora Principal do projeto STRINGS.
Email: monica.truninger@ics.ulisboa.pt
Webpage: https://www.ics.ulisboa.pt/pessoa/monica-truninger

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