STRINGS: Vendendo os produtos agroalimentares de proveniência rural através de lojas gourmet em espaço urbano

Mónica Truninger, Elisabete Figueiredo e Alexandre Silva

Uma das principais transformações da sociedade portuguesa nos últimos 60 anos está relacionada, por um lado, com as mudanças observadas nas zonas rurais (mais ou menos intensas) e, por outro lado, com a consequente reestruturação das relações rural-urbano. Esta transformação tem vindo a aumentar a vulnerabilidade de muitos territórios rurais, através do declínio das dinâmicas demográficas e socioeconómicas, bem como do reforço das assimetrias entre o interior e o litoral de Portugal.

Como forma de resiliencia, os territórios rurais tem vindo a transformar-se de locais de produção em espaços multifuncionais, especialmente orientados para o consumo. Nestes processos, o contributo das políticas de desenvolvimento nacionais e europeias é decisivo, nomeadamente o Pilar II do desenvolvimento rural da Política Agrícola Comum (PAC). No rural multifuncional, a agricultura, combinada com outras atividades (por exemplo, a produção florestal, a proteção do ambiente e turismo, rural ou de natureza) conquista relevância nas últimas décadas e capitaliza os recursos endógenos das regiões, nomeadamente com os produtos tradicionais de qualidade certificados (DOP – denominação de origem protegida; IGP – Indicação geográfica protegida; ETG – especialidade tradicional garantida); os produtos de agricultura biológica e outros produtos locais ou típicos.

Figura 1 – Paisagem agrícola. Créditos: Elisabete Figueiredo

À semelhança de outras regiões europeias, é também crescente o interesse, por parte dos consumidores portugueses, pelos produtos alimentares tradicionais, produzidos localmente e com certificação de qualidade, bem como o aumento do número de estabelecimentos comerciais e restauração em áreas urbanas que vendem esses produtos, muitas vezes até associadas ao vocábulo ‘gourmet’. Alguns trabalhos avançam que o consumo destes produtos locais em espaço urbano, bem como a existência de sistemas de provisão local nas cidades podem contribuir decisivamente para induzir e/ou reforçar novas relações entre espaços urbanos e rurais. Mais, estes aspetos podem possibilitar uma maior diversificação económica e promover o desenvolvimento sustentável das comunidades rurais. Vários estudos sobre a produção local de alimentos em áreas rurais focam os impactos que as cadeias de abastecimento alimentar curtas podem ter na promoção do desenvolvimento rural sustentável, bem como nas preferências dos consumidores. No entanto, existe ainda pouca análise e reflexão teórica sobre o papel que as lojas especializadas urbanas que comercializam esses produtos podem ter no fomento da produção agrícola, no desenvolvimento rural, na atração turística nas zonas rurais, e nas ligações rural-urbano em Portugal, bem como no seu contributo para a redução das persistentes assimetrias territoriais do país. Na mesma linha, poucas pesquisas foram realizadas sobre as motivações dos lojistas urbanos na venda de produtos alimentares locais, sobre o tipo de produtos vendidos, a sua origem e promoção, bem como sobre os vínculos que essas lojas promovem ao longo dos vários atores da cadeia de valor (consumidores, retalhistas, distribuidores e produtores). Ao criar ligações ou ao reativá-las, as lojas atuam como aceleradores de redes, dinamizando as economias locais e regionais em espaço rural. Tendo em conta que a alimentação é uma parte relevante da cultura e identidade de um território, as lojas especializadas, ao mesmo tempo que vendem produtos de origem rural, oferecem uma parte do saber-fazer dessas regiões, bem como um pouco da identidade cultural e experiência de autenticidade (mesmo que reinventada e recriada) que os consumidores tanto parecem procurar em espaço urbano.

São precisamente estas lacunas que o projeto STRINGS, financiado pela FCT [PTDC/GES-OUT/29281/2017/ POCI-01-0145-FEDER-029281, liderado por Elisabete Figueiredo da Universidade de Aveiro e coliderado por Mónica Truninger no ICS-ULisboa], está a contribuir para colmatar. O projeto reúne uma equipa de sociólogos, geógrafos e economistas da Universidade de Aveiro, da Universidade de Lisboa (ICS e IGOT) e da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Figura 2 – Logotipo do projeto STRINGS. Logo design: Liliana Eusébio

Com base em abordagens teórico-metodológicas multidisciplinares, o projeto STRINGS está desde 2018 (e até 2021) a analisar o papel que as lojas ‘gourmet’ ou especializadas situadas nas cidades podem ter na promoção de novas relações urbano-rurais, bem como na atratividade turística, na reestruturação e valorização socioeconómica, na sustentabilidade e na coesão territorial em Portugal, através da promoção e comercialização de produtos alimentares tradicionais e produzidos em espaço rural.

Figura 3 – Amoras silvestres. Créditos: Elisabete Figueiredo

O STRINGS foca três cidades concretas – Lisboa, Porto e Aveiro – tipificando as lojas especializadas destas cidades e entendendo os processos de comercialização na sua globalidade. Também pretende compreender e mapear estes processos (através de Sistemas de Informação Geográfica) e traçar os caminhos percorridos pelos produtos locais – de forma detalhada e com base em casos selecionados – desde a produção até ao consumo. Para atingir estes objetivos, o projeto combina metodologias e técnicas qualitativas e quantitativas ao longo de sete tarefas principais, as quais envolvem: 1) elaborar uma tipologia de lojas especializadas nas três cidades (tarefa terminada); 2) georreferenciar as lojas e compreender como a localização e a geografia territorial dos sistemas de provisão alimentar influenciam a promoção das relações urbano-rurais (tarefa em progresso); 3) analisar uma amostra de lojas tipificadas nas três cidades através de um curto questionário aos lojistas de forma a compreender os processos globais da rede de comercialização e traçar os caminhos percorridos pelos produtos locais, desde a produção ao consumo (tarefa em progresso); 4) analisar os materiais promocionais utilizados pelas lojas para publicitar os produtos (tarefa terminada); 5) analisar de forma exploratória as práticas de consumo local e as perceções de ruralidade e alimentos tradicionais locais dos clientes das lojas selecionadas através de um curto questionário (tarefa em progresso); 6) elaborar uma Análise Exploratória de Dados (EDA) combinada com modelos de interação espacial das lojas para entender todos os processos de produção, distribuição, comercialização e consumo, bem como os impactos socioeconómicos nos territórios rurais e as interações entre espaço rural e urbano (em progresso); 7) e finalmente, elaborar diretrizes para melhorar as ligações entre os territórios rurais e urbanos, com base em circuitos de produção e consumo (a iniciar em 2021).

Os principais resultados obtidos decorrem da realização de um inquérito às lojas especializadas das três cidades, e que sustentou a caracterização deste retalho especializado a partir de uma tipologia assente em três clusters: o generalista, o de proveniência rural e o cluster do vinho. Estes resultados serão detalhados oportunamente num outro texto para este blogue. Fiquem atentos!


Monica Truninger, Socióloga e coordenadora do Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Co-Investigadora Principal do projeto STRINGS.
Email: monica.truninger@ics.ulisboa.pt
Webpage: https://www.ics.ulisboa.pt/pessoa/monica-truninger

Elisabete Figueiredo, Socióloga e Professora Associada com Agregação do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro e Investigadora Principal do projeto STRINGS.
Email: elisa@ua.pt
Webpage: https://www.ua.pt/pt/p/10311090

Alexandre Silva, Sociólogo. É membro da equipa do STRINGS e investigador convidado no projeto SafeConsume (Horizonte 2020).
Email: alexandre.silva@ics.ulisboa.pt
Webpage: https://www.cienciavitae.pt/portal/8F1C-1431-CB72

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