Educação transformativa: o que o Deep Time Walk revela sobre o modo como ensinamos, investigamos e imaginamos futuro em tempos de crise socioambiental

Por: Carolina Mello

Em 2021, atravessei o oceano Atlântico para iniciar o doutoramento em Ambiente e Sustentabilidade em Portugal. Vinha movida pelo questionamento sobre como é que certas experiências nos transformam de forma tão profunda que passamos a existir no mundo de um modo diferente. Essa inquietação levou-me à aprendizagem transformativa e, inesperadamente, conduziu-me ao Deep Time Walk (DTW). O que começou como um tema de investigação tornou-se também espelho, guia e companheiro de viagem.

O DTW é uma experiência educativa em formato de caminhada que traduz os 4,6 mil milhões de anos da história da Terra num percurso de 4,6 km, onde cada metro equivale a 1 milhão de anos. É uma metáfora espaço-temporal construída através de narrativas científicas e paragens chamadas Earth Stations, onde a informação é partilhada de forma lúdica e prática. À primeira vista, parece apenas uma metodologia pedagógica criativa e inovadora, mas logo percebi que é mais do que isso. O DTW é um exercício de humildade, relação e de colocar nossa visão sob outras      perspetivas. É um convite a caminhar pela história da Terra, mas também de perceber a interconexão entre tudo o que foi e ainda será por aqui. E foi a partir desse encontro entre ciência e espiritualidade que comecei a repensar o que significa educar num mundo em crise.

Figura 1: Deep time Walks, autores Linda Polzin (esquerda) e Lourenço Booth (direita)

Ao longo de três anos, facilitei dezassete caminhadas oficiais (mais pelo menos três nas quais não houve coleta de dados empíricos), envolvendo mais de 150 participantes. Recolhi dados, escutei histórias, observei silêncios, tentei compreender como a experiência mobilizava reflexões e afetos. Eu desejava investigar práticas transformativas, mas percebi que o DTW ia além do que eu poderia ter antecipado. Enquanto pesquisava o impacto da atividade nos outros, era a minha própria forma de fazer ciência que se transformava. Para compreender o DTW, mergulhei em campos como embodied learning, educação relacional e ecologia profunda, nas suas dimensões filosóficas como por exemplo avançado por Arne Naess, e nas suas dimensões científicas, como avançado por James Lovelock (Gaia Theory) ou Fritjof Capra (Web of Life), entre outros, que exigem não apenas estudo mas também uma disponibilidade interior que a academia raramente ensina a cultivar. E, nesse processo também ficou claro que não basta produzir conhecimento sobre transformação, é necessário permitir que o conhecimento nos transforme. Essa constatação é, talvez, uma das críticas mais urgentes à universidade neoliberal contemporânea      que está muitas vezes excessivamente orientada pelo ego e competição, pela produtividade e pela lógica de desempenho, em vez de ser movida por propósito, cuidado e responsabilidade com o mundo.

Trabalhar com aprendizagem transformativa tornou-me menos radical e, paradoxalmente, mais crítica em vários aspetos, como por exemplo:      com métodos de ensino que ainda separam mente e corpo, com práticas de investigação que tratam o planeta como objeto e não como organismo vivo, com políticas públicas que continuam a ignorar a dimensão emocional e até espiritual da crise socioambiental, na qual reside uma profunda desconexão. Ao facilitar as caminhadas, comecei a notar que no final, as pessoas falavam em como a história geológica as ajudava a ver suas próprias vidas de uma outra forma. Percebi que práticas como o DTW ajudam a deslocar a perspetiva da humanidade como centro do mundo para a humanidade como parte do mundo, e esse deslocamento tem enorme valor político e educativo. Em tempos de desigualdade crescente e colapso socioambiental, talvez o maior desafio não seja apenas mudar políticas, tecnologias ou currículos, mas mudar perceções daquilo que consideramos possível, desejável ou necessário.

Durante o doutoramento, tive ainda o privilégio de conhecer pessoalmente os criadores do DTW. Sérgio Maraschin, brasileiro como eu e também residente em Portugal, e Stephan Harding,     que nos deixou um legado profundo e valioso. Com eles aprendi que o DTW é uma obra aberta, que se transforma à medida que o mundo, e nós, mudamos. É uma prática que nos lembra que a educação, tal como o planeta, é um processo vivo e relacional. Essa perceção me trouxe uma pergunta necessária: que modelo de universidade precisamos para um tempo em que o próprio planeta nos pede para mudar? Se a sociedade se transforma, o ensino e a ciência não podem permanecer estáticos. Práticas como o DTW mostram que é possível integrar conteúdo científico com experiência, emoção e imaginação, e que essa integração não enfraquece a ciência, pelo contrário, fortalece-a, tornando-a mais humana, mais relevante e mais capaz de gerar mudança.

Ao planejar cada caminhada, eu perguntava a mim mesma que mensagem gostaria de deixar às pessoas ao final. Nunca encontrei uma resposta definitiva e talvez seja justamente isso que o DTW ensina. As transformações mais importantes raramente oferecem conclusões fechadas. Elas abrem fissuras por onde novas perguntas entram. Para repensar práticas educativas que acolham vulnerabilidade e sensibilidade. Para construir uma ciência que não se limite a descrever o mundo, mas que se deixe afetar por ele. Hoje, depois de anos a caminhar pelos 4,6 mil milhões de anos da Terra, percebo que a mensagem central que busco partilhar é simples: não podemos transformar o mundo apenas com ideias, precisamos transformar também o modo como nos relacionamos com ele. A aprendizagem transformativa começa dentro, mas não termina aí. Ela expande-se para os pequenos detalhes do cotidiano, para as escolhas que fazemos, para o cuidado que oferecemos, para a coragem de imaginar futuros que ainda não existem. E talvez seja nesse espaço íntimo onde investigação e vida se misturam que reside o poder mais genuíno da ciência voltada para a sustentabilidade. Quando permitimos que o processo nos toque, deixamos de falar sobre transformação e começamos, finalmente, a incorporá-la.

Carolina Mello é bióloga e professora de ciências, atualmente finalizando o seu doutoramento em Ambiente e Sustentabilidade pela Universidade Nova de Lisboa. Suas práticas visam recriar novas formas de ser e viver no mundo, buscando maior harmonia com a Terra. cme.silva@campus.fct.unl.pt

Fazer experiências com a divulgação de um projeto – Parte II: a Zine

Por: Jussara Rowland, Ana Delicado, e Clara Venâncio

Zines Académicas: Porquê e para Quê?

No nosso post anterior, sobre a relevância de experimentar novos formatos de disseminação, debruçámo-nos sobre a criação de um desdobrável, em formato de “quantos queres”, no âmbito do projeto de investigação Engage IoT – Envolvimentos sociais com a Internet das Coisas (EXPL/SOC-SOC/1375/2021), mencionando a sua articulação com uma zine. Mas, afinal, o que são as zines?

As zines, termo derivado de fanzines e ascendente de e-zines, são publicações não oficiais, produzidas de forma independente, mais ou menos artesanal, sobre temas variados. Originadas nos anos 1930 junto dos entusiastas da ficção científica, as zines ganharam sucesso a partir dos anos 1970 nos movimentos ativistas punk e da música alternativa, e dos anos 1990 no movimento underground feminista Riot Grrrl. Tradicionalmente associadas a culturas DIY, movimentos sociais e artísticos, as zines têm como principal função a disseminação de ideias e a partilha de informações fora dos circuitos convencionais.

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Fazer experiências com a divulgação de um projeto: Parte I

Por: Ana Delicado, Jussara Rowland e Clara Venâncio

Um projeto de investigação, uma estratégia de disseminação de resultados

Engage IoT – Envolvimentos sociais com a Internet das Coisas foi um projeto de investigação exploratório financiado pela FCT (EXPL/SOC-SOC/1375/2021) que decorreu no ICS, no âmbito do GI SHIFT, entre 2022 e 2023. O objetivo central deste projeto foi compreender como os atores sociais (produtores, consumidores, reguladores) se envolvem com um novo tipo de tecnologia (Internet das Coisas – IoT), desde o nível macro dos imaginários sociotécnicos até ao nível micro das práticas de utilização.

Um projeto de investigação que não dissemina os seus resultados é inútil. Sem dúvida que apresentar comunicações em congressos, publicar artigos em revistas ou mesmo um livro (ainda estamos a trabalhar nisso) é essencial para debater os resultados entre pares. Contudo, nós queríamos chegar mais longe: chegar a quem desenha estes produtos tecnológicos, a quem os regula, a quem os usa; assim como a quem se interessa por tecnologia e pelos seus aspetos sociais. Com esse intuito, criámos e alimentámos um website: em colaboração com um realizador (João Ramos) fizemos um vídeo curto e em colaboração com uma socióloga/designer (Tatiana Ferreira) fizemos uma research brief.

Experimentámos também novos formatos que permitissem ainda um maior alcance em termos de disseminação.  Optámos, assim, por fazer um desdobrável e uma Zine (que será material para a parte II deste post).

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A interdisciplinaridade na pesquisa sobre mudança climática: reflexões a partir da experiência do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia no Brasil

Por: Julia S. Guivant

O apelo ao estudo interdisciplinar sobre mudança climática passou a ser bastante consensual, com maior número de periódicos publicando artigos com este caráter, e presente em editais de agências de financiamento. Este destaque está intimamente relacionado com a evidência incontestável sobre o papel da influência humana no clima. A interdisciplinaridade é considerada chave tanto para entender como as sociedades interpretam e respondem às mudanças climáticas quanto para formular e orientar na implementação de políticas públicas para mitigação e adaptação. É importante diferenciar a interdisciplinaridade, o estudo de um problema complexo integrando num esforço coletivo diversas perspectivas disciplinares, sem privilegiar um método ou uma teoria disciplinar, da multidisciplinaridade. Esta estuda um tópico a partir da perspectiva de várias disciplinas ao mesmo tempo, sem procurar integrar estas. E se diferencia da transdisciplinaridade, que tende a ser definida como um tipo de interdisciplinaridade, que procura integrar não apenas disciplinas, mas conhecimentos diversos, fora da academia.

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Da esquizofrenia das políticas ambientais em Portugal. Conhecimento de base científica no apoio à tomada de decisão – Precisa-se

Por: Rosário Oliveira

Em contexto de instabilidade generalizada à escala global, as políticas ambientais ganharam um estatuto quase esquizofrénico, tornando-se difícil, senão impossível, prever a trajetória que irão prosseguir para evitar a hecatombe climática e de perda de biodiversidade, com consequências trágicas para a sobrevivência dos ecossistemas e da sociedade do século XXI.

Não se trata de um discurso catastrofista, senão do reconhecimento factual acerca do descomprometimento e desresponsabilização dos países relativamente aos Acordos internacionais para inverter a tendência de aquecimento global e de perda massiva da biodiversidade.

No momento em que a Organização das Nações Unidas (ONU) promove a 28ª edição da Conferência das Partes – COP 28, sobre mudanças climáticas, fica claro o jogo de forças das grandes potências mundiais entre apostar na economia do carbono ou na sua descarbonização.

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PhD ShiftHub: Presente e Futuro

Por: PhD SHIFTHub

Balanço dos anos de vida do Hub

Durante a pandemia de COVID-19, alguns estudantes de doutoramento do grupo de investigação Ambiente, Território e Sociedade (GI SHIFT) organizaram reuniões mensais informais que acabariam por resultar na criação do PhDSHIFTHub – um coletivo horizontal de estudantes, baseado na amizade, no respeito mútuo e na empatia. O PhDSHIFTHub começou por ser um espaço auto-organizado de entreajuda e partilha de ideias e experiências (pessoais e de investigação) entre doutorandos/as, com o intuito de quebrar o isolamento, rejeitar a competitividade entre pares e fortalecer os laços de solidariedade.

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Come to Lisbon and see The Urban – the Lisbon Urban Studies Early Career Workshop

By: Marco Allegra

On November 8-10, 2023, ICS-ULisboa will host the 3rd edition of the Lisbon Early-Career Workshop in Urban Studies, which follows the editions of 2021 and 2022 – Luisa Rossini wrote a post on the 2022 edition. The Workshop is organised by the Urban Transitions Hub (UTH, an ICS-based horizontal and informal group of some fifteen-twenty scholars affiliated to various academic institutions).

As the UTH chair(although I shouldn’t be saying this myself) I can say that the first two editions of the workshop (one online and one in presence) have been very successful success, and the third edition promises to be even better.

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O ICS na Noite Europeia dos Investigadores 2022: ‘Desafios da Sustentabilidade – Cidadãos em Transição’

Por: André Pereira, Joana Sá Couto e Inês Gusman

O Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL) participou, no passado dia 30 de setembro, na Noite Europeia dos Investigadores (NEI). Esta é uma iniciativa dedicada a aproximar a comunidade académica e a sociedade civil, que acontece em simultâneo em diferentes cidades do país. Em Lisboa é promovida pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência e pela Universidade de Lisboa, em colaboração com a Universidade Nova de Lisboa representada pela Faculdade de Ciências e Tecnologia, o ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, a Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril e a Câmara Municipal de Lisboa. Acontece entre as paredes do próprio museu, no Jardim Botânico de Lisboa, no Jardim do Príncipe Real e online. Em 2022, este evento consistiu num programa variado, incluindo visitas orientadas, Cafés de Ciência, espetáculos, para além das diversas atividades promovidas por universidades e centros de investigação. Dado o tema deste ano, “Ciência para todos – sustentabilidade e inclusão”, e à semelhança de edições anteriores, o ICS não poderia mais uma vez deixar de estar presente (Figura 1), especialmente tendo em conta o seu compromisso com as atividades de extensão universitária e de promoção do diálogo ciência-sociedade.

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Imaginar Cidades – notas sobre o “East Side” de Lisboa

Por: Marco Allegra

Será que é a imaginação que cria a sociedade e o ambiente onde vivemos? Será que uma cidade é feita de ideias e até de fantasias, misturadas com aço, vidro e cimento? Será que todos nós (do Presidente da República ao cidadão comum) somos também sonhadores de cidades?

Sobre este tema foi publicada recentemente uma mesa redonda na revista Mediapolis, coordenada por dois colegas do ICS, Lavínia Pereira e João Felipe P. Brito – um agradecimento especial à Anna Viola Sborgi pelo convite inicial.

Esta mesa redonda resulta da reflexão que surgiu no grupo de leitura do Urban Transitions Hub que, durante o ano passado, debateu a noção de “social imaginary” através da obra de autores como, Cornelius Castoriadis, Benedict Anderson, Yuval Harari, Frederic Jameson, Ruth Levitas e Sheila Jasanoff, entre outros, – aqui uma introdução mais estruturada ao tema, a lista das leituras completa encontra-se no final do post.

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Quando os espaços perdem o nome: Considerações sobre o anonimato organizacional

Por: Fábio Rafael Augusto

Em 2018, escrevi um post para este mesmo blogue acerca dos desafios com que me deparei no acesso ao terreno de pesquisa. Entre os vários constrangimentos identificados, no decurso da minha investigação de doutoramento, encontravam-se as várias exigências dos responsáveis pelas iniciativas de apoio alimentar que analisei (Organização de Redistribuição de Alimentos – ORA, Cantina Social e Mercearia Social). Tratando-se de um projeto que envolvia a realização de observação participante, por intermédio da prática de voluntariado, era crucial garantir que o acesso às organizações envolvidas ocorria de forma fluida e flexível. Uma das imposições que acabaria por marcar decisivamente o desenrolar da pesquisa, bem como o ritmo e o tom em que a tese seria escrita, prendeu-se com a garantia do anonimato organizacional.

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