A TRANSIÇÃO ALIMENTAR NA ÁREA METROPOLITANA DE LISBOA

Por: Rosário Oliveira e Mónica Truninger
ICS Food Hub

No contexto das mudanças globais e da recuperação pós-pandemia, o suprimento alimentar das cidades com produtos frescos e seguros é um dos tópicos fundamentais a ser levado em consideração em todo o mundo. Através do planeamento alimentar é possível responder a diversos objetivos europeus como os do Pacto Ecológico Europeu, da Estratégia do Prado ao Prato e da Estratégia Biodiversidade 2030, ou nacionais como os da Agenda de Inovação Territorial 2030.

Os Parques Agroalimentares constituem-se como oportunidades de operacionalização de estratégias alimentares de base territorial, numa estreita relação com o ordenamento do território regional e local, com impacto positivo na criação de dinâmicas urbano-rurais de proximidade, podendo integrar diferentes componentes do sistema alimentar e fornecer serviços multifuncionais de forma inovadora.

O ICS-ULisboa, através do Gi Ambiente, Território e Sociedade e do ICS Food Hub, apresenta um ciclo de três webinars dedicado à Transição Alimentar com o objetivo de juntar pessoas, refinar conceitos, partilhar experiências e promover o debate sobre a relevância de uma Rede de Agroparques na Área Metropolitana de Lisboa (AML) que cumpra metas ecológicas, económicas, inclusivas, de saúde e de bem-estar para a população metropolitana.

  1. Porque é necessária a transição alimentar?

Segundo a FAO, em 2050, a área necessária para alimentar a população mundial terá que ser aumentada em cerca de 70%, relativamente à área utilizada em 2010.
Se atendermos ao elevado consumo de recursos naturais e de energia na produção, processamento e distribuição de alimentos à escala global e os seus impactos no ambiente e na saúde pública, é fácil compreender a necessidade de repensar os sistemas alimentares para garantir a redução da sua pegada ecológica através de modelos de sustentabilidade e de resiliência.


Por outro lado, os recentes fenómenos sociais e económicos desencadeados pela COVID-19 revelam que a sociedade atual é fortemente influenciada pela conectividade global e pela vulnerabilidade local, sendo crítico assegurar formas de produzir, transformar, distribuir e consumir alimentos a partir de redes de proximidade, permitindo até 2030 atingir os dezassete ODS das Nações Unidas em que a alimentação está implicada.
De outra forma, a subida dos preços e a redução da segurança alimentar serão ameaças incontornáveis para a população urbana e para as entidades locais.

  1. Como fazer a transição alimentar?

A transição para sistemas alimentares sustentáveis pressupõe a implementação de políticas e estratégias europeias e nacionais, cujos objetivos reforcem a importância de um sistema alimentar robusto e resiliente que funcione em todas as circunstâncias e seja capaz de garantir o acesso a um abastecimento alimentar em quantidade e qualidade, a preços acessíveis para os cidadãos, com o valor justo a dar ao produtor chamando a atenção para as inter-relações existentes entre a nossa saúde, o equilíbrio dos ecossistemas, as cadeias de abastecimento, os padrões de consumo e os limites do planeta.

Estas metas, no seu conjunto, apontam para a necessidade de olharmos para as estratégias alimentares como uma oportunidade de integração de diversas políticas em função de um interesse comum. Estes princípios serão fundamentais para corrigir a pegada ecológica alimentar nacional, estimada ser três vezes superior à capacidade dos sistemas ecológicos para se regenerarem, devido ao excessivo consumo de carne e peixe na dieta da grande maioria dos portugueses. A transição alimentar implica, assim, não só a adopção de dietas mais saudáveis e sustentáveis, mas também a implementação de estratégias de planeamento alimentar bem articuladas com os instrumentos de ordenamento e gestão do território e adequados modelos de governança

  1. A transição alimentar na AML a partir de uma Rede Metropolitana de Agroparques (RMA)

É nesta dupla acepção que surge a proposta para a constituição de uma RMA na AML, no âmbito do Living-Lab do projeto ROBUST, a cargo da CCDRLVT e do Instituto Superior Técnico. Sob coordenação de Rosário Oliveira e com o apoio do ICS Food Hub, juntamente com Carlos Pina, Alexandra Almeida e Lina Pereira da CCDRLVT, um Grupo de Trabalho com cerca de 20 parceiros metropolitanos, estabeleceu um conceito para esta rede, uma visão para 2030 e os principais objetivos estratégicos.

A RMA é constituída por um conjunto diverso de territórios, iniciativas e atores da AML. Está organizada através de uma plataforma colaborativa de entidades públicas e privadas que prosseguem princípios de sustentabilidade relativamente ao nexus solo, água, biodiversidade e energia, com vista a uma alimentação segura, saudável, inclusiva e responsável da população metropolitana.
As suas atividades promovem uma economia circular, resiliente e de proximidade, atendem à adaptação climática, criam emprego, promovem a saúde e o bem-estar e respeitam a equidade social. A RMA apoia a dieta mediterrânica, reforça a identidade cultural e incentiva a inovação científica e tecnológica nas diversas componentes do sistema alimentar. Os produtos da RMA têm uma marca própria que certifica a sua qualidade e o compromisso com os objetivos de desenvolvimento sustentável no contexto urbano-rural. A RMA contribui para a formação, capacitação e sensibilização dos agentes ativos do sistema alimentar e empenha-se no aumento da literacia alimentar e na transição para a digitalização.

Em 2030, 15% do aprovisionamento alimentar da AML será assegurado por um sistema alimentar sustentável, baseado em modos de produção sustentáveis, redes de distribuição de baixo carbono e em circuitos alimentares de proximidade que cumprem com os critérios de inclusão e segurança alimentar. Os produtos RMA estarão disponíveis e acessíveis para o consumo alimentar responsável de todos os cidadãos da AML e serão uma mais-valia para a promoção de um turismo responsável e ético. Para além das atividades inerentes ao sistema alimentar, a RMA oferece oportunidades de recreio e de turismo gastronómico e cultural em todo o seu território, constituindo-se como uma iniciativa inovadora que contribui para a valorização sócio-ecológica e económica da AML e para o fortalecimento das sinergias urbano-rurais. No seu conjunto, a RMA constitui-se como um motor para a coesão e valorização do território e da paisagem metropolitanos.

São objetivos estratégicos da RMA:

  • Definição de estratégia de planeamento e gestão do sistema alimentar metropolitano;
  • Apoio à organização de circuitos curtos para garantir o abastecimento de proximidade;
  • Criação de uma plataforma colaborativa de entidades públicas e privadas para a operacionalização da estratégia e dinamização da RMA;
  • Criação de uma marca própria que certifica os produtos RMA;
  • Promoção de uma campanha de comunicação para a alimentação responsável e promoção da marca RMA:
  • Definição e implementação de um programa de formação, capacitação e educação alimentar

É este o debate que queremos agora alargar a todos os interlocutores interessados, que convidamos a inscreverem-se neste ciclo de webinars e a serem mais um agente da implementação desta rede para a transição alimentar na AML.


O primeiro webinar é já dia 9 de abril!

O Programa dos webinars encontra-se aqui

A inscrição poderá ser efetuada aqui


Rosário Oliveira tem um doutoramento europeu em Artes e Técnicas da Paisagem, é investigadora auxiliar do ICS-ULisboa, GI ‘Ambiente, Território e Sociedade’ e co-responsável (juntamente com José M. Sobral do GI Identidades) pelo ICS Food Hub . A sua investigação procura responder aos desafios societais, nomeadamente a emergência climática, o planeamento alimentar e a perda de biodiversidade, através de processos transformativos e soluções de base natural que integrem a ciência, as políticas públicas e a ação, com impacto positivo no bem-estar humano, na economia, na qualidade ambiental e da paisagem. rosario.oliveira@ics.ulisboa.pt

Mónica Truninger é doutorada em Sociologia pela Universidade de Manchester e investigadora auxiliar do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa). É coordenadora do GI Ambiente, Território e Sociedade e membro fundador do ICS Food Hub. monica.truninger@ics.ulisboa.pt

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