Vírus expôs falha sistémica e agrava divergência na UE

Por Paulo Miguel Madeira*

Devido à pandemia da Covid-19, entre o final do inverno e o início da primavera de 2020, centenas de milhões de europeus ficaram com as suas vidas suspensas, sujeitos a regimes mais ou menos coercivos de permanência nas suas residências, com as saídas limitadas a situações específicas determinadas pelas autoridades. A estratégia de diminuição drástica do contacto social adotada durante estes meses foi necessária para conter a disseminação do vírus e salvar muitas vidas, porventura dezenas de milhares em Portugal e centenas de milhares ou mesmo milhões por toda a Europa. Estão em maior risco pessoas com problemas de saúde específicos e pessoas idosas em geral – e os europeus são uma população muito envelhecida.

O problema são as razões que nos conduziram até esta situação, em que a principal resposta à COVID-19 que os países da UE tiveram de início para oferecer às suas populações foi algo típico da Idade Média, quando a higiene e a medicina não tinham ao seu alcance o conhecimento e os recursos atualmente existentes.​

Cerca de dois meses decorridos após ser conhecida a nova epidemia e as suas consequências potencialmente devastadoras, as autoridades europeias quase nada tinham acautelado. Deixaram o vírus alastrar e quando começaram a reagir estavam perante uma situação terrível, pois a produção de material sanitário na UE não era suficiente sequer para as suas necessidades em tempos de normalidade na saúde pública e nesse momento não era possível reforçar os fornecimentos da China. Assim, sucederam-se os​ relatos de falta de equipamentos de proteção nos hospitais portugueses e de outros países, colocando em risco os profissionais de saúde quando eram mais necessários e facilitando a disseminação do vírus por quem necessitava de utilizar os seus serviços.

Além dos problemas nos hospitais, a falta de material de proteção e de testes impediu que a generalidade dos países europeus pudesse adotar desde o início desta epidemia estratégias semelhantes às da Coreia do Sul, que testou sistematicamente quem tivesse estado em contacto com pessoas infetadas, mesmo que não tivesse sintomas, Isto permitiu conter rapidamente o alastramento da epidemia, sem que esta alcançasse a dimensão trágica que assumiu em Itália e em Espanha.

Como isso foi conseguido sem confinamento estrito, na Coreia do Sul não foi necessária uma paralisação das atividades económicas tão generalizada e prolongada como a que decorreu na UE. Esta abordagem tem sido bem-sucedida. Em 26 de julho, a Coreia do Sul tinha 14 150 casos confirmados e uma taxa de incidência de 27,6 por cem mil habitantes, face a respetivamente 50 164 casos confirmados e 492 casos por cem mil habitantes em Portugal.

A Comissão Europeia, habituada a fazer recomendações aos governos que implicam cortarem despesa, em nome da competitividade em ambiente de globalização, de início nada disse publicamente sobre a necessidade de prevenir a crise sanitária e de preparar os sistemas de saúde. Aliás, a austeridade dos últimos dez anos nos países do Sul da Europa afetou também os seus sistemas de saúde e é uma das razões por que a Itália e a Espanha ficaram rapidamente sem capacidade de resposta para todos os doentes em estado grave, tendo os médicos por vezes de escolher quais iriam tratar e quais iriam abandonar a uma morte quase certa.

Estas situações expuseram a vulnerabilidade da UE face à produção de equipamento de saúde e de medicamentos no exterior. E expuseram o perigo dessa dependência em contextos de crise, até porque alguns países queixaram-se de que os EUA teriam desviado material médico comprado por eles e, a dado momento, a Turquia apreendeu material comprado pela Espanha à China.

Impacto territorial assimétrico da pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial

A estratégia de diminuição drástica do contacto social obrigou a uma paragem também drástica da atividade económica, que conduziu a Europa a uma recessão sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. Nas suas Previsões Económicas de Verão, a Comissão Europeia calcula que o PIB da zona euro recue 8,75% este ano face a 2019, com impacto territorialmente muito diferenciado por países (ver mapa) e, por isso, maior divergência socioeconómica. E assume que esta recessão poderá vir a ser ainda pior, sobretudo se houver uma segunda vaga de infeções, entre outros riscos que se poderão concretizar. Por seu lado, em junho o FMI projetou uma recessão de 10,2% para a zona euro este ano, alertando para o grau de incerteza superior ao habitual associado aos valores divulgados.

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Fonte: Previsões Económicas do Verão de 2020 da Comissão Europeia

A “falha sistémica” na UE consiste justamente no facto de haver uma recessão com esta profundidade (cuja recuperação decorrerá a um ritmo muito incerto) por falta de capacidade industrial instalada no seu território para produzir equipamento de saúde e assegurar um funcionamento minimamente normal de outros setores produtivos, dependentes de cadeias de fornecimento da Ásia.

Os riscos desta globalização não poderiam ser mais claros e esta situação de dependência do exterior em questões críticas como a segurança da saúde pública é uma das razões na base da intensificação do discurso de protecionismo industrial, mesmo por parte de agentes que até aqui foram muito ativos na defesa de um liberalismo globalista que transferiu grande parte da produção industrial europeia para países com mão-de-obra barata. A ideia de reindustrialização voltou ao espaço público, nomeadamente em França, sendo relacionada também com a soberania nacional. Aliás, o fecho das fronteiras entre os Estados-membros da UE, quase sem coordenação entre si, é um dos sinais mais fortes da nova realidade em que os países começam a agir mais unilateralmente. Isto faz com que a desglobalização que já se fazia sentir de modo hesitante desde a crise de 2008 (ver gráfico) se torne agora uma tendência dificilmente reversível.

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Fontes: elaborado com dados da OMC e do Banco Mundial.

Além de o choque inicial ser muito assimétrico (uma recessão de mais de 12% em Itália, face a uma queda inferior a 7% na Alemanha), a capacidade de resposta a esta recessão será muito diferente nos vários países, consoante a situação das suas contas públicas, muito debilitadas no Sul e robustas no Centro. Isto será outro fator a aumentar as fraturas internas. Note-se que o Fundo de Recuperação para a UE aprovado a 21 de julho pelos seus dirigentes terá disponíveis 750 mil milhões de euros para o conjunto dos seus países, um valor muito inferior aos 1,3 biliões que o Governo alemão tinha decidido que seriam injetados na economia do país, entre ajudas de emergência, fundos para capitalização de empresas, crédito e garantias de crédito.

Para os geógrafos, abrem-se novos desafios em termos de pesquisa que dê conta das novas realidades que irão impor-se. Do ponto de vista da geografia económica e do desenvolvimento, haverá toda uma nova realidade para mapear e compreender, de início. É expectável que a anunciada reindustrialização europeia ocorra consoante os diferentes níveis de desenvolvimento socioeconómico, perfis de especialização e nível tecnológico dos diferentes países e regiões. Isto será uma oportunidade para que regiões periféricas perdedoras da globalização readquiram dinamismo, porque estão menos congestionadas e geralmente conseguem custos de produção menores do que as mais centrais.

Nota: Este post retoma em parte o texto Vírus Expõe Falha Sistémica na União Europeia, disponível aqui.

* Paulo Miguel Madeira é Doutorado em Geografia Humana pelo Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa. É bolseiro, no ICS, do projeto As Pessoas e o Fogo: Reduzir o Risco, Conviver com o Risco, onde participa na avaliação de políticas e na análise dos resultados dos inquéritos aos proprietários florestais e aos residentes da área de estudo. Foi jornalista no jornal Público, sobretudo nas áreas da economia e media.
paulo.madeira@ics.ulisboa.pt

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