Podem o cosmopolitismo e o racismo coexistir?

Por Susana Boletas

Cosmopolitismo e globalização

O cosmopolitismo, ideologia que eleva todas as pessoas, independentemente do seu local de origem, a cidadãos do mundo livres de nele circular, tem vindo a ser apresentado como solução para as limitações do multiculturalismo que, em nome da diversidade, peca por essencializar e reificar culturas e relações assimétricas de poder existentes dentro delas, por secundarizar direitos individuais e por separar mais do que incluir, pois a sua natureza ambígua presta-se facilmente à manipulação retórica. O regime de apartheid da África do Sul, por exemplo, fundamentou-se nas diferenças culturais existentes no país, que seriam, por conseguinte, inultrapassáveis. Vai ganhando força, assim, a ideia de uma cidadania cosmopolita que vá além do multiculturalismo e que contrarie a lógica assimilacionista do Estado-nação, que nega a diversidade e presume a superioridade de quem assimila sobre quem é assimilado.

E porque é que a ideia de cidadania cosmopolita ainda não se afirmou, se vivemos num mundo globalizado? Porque o que se globalizou foi o capitalismo, que criou maiores assimetrias e, ao invés de diluir fronteiras, como alguns autores vaticinavam, reforçou-as. Capital e mercadorias circulam com mais facilidade do que pessoas, que circulam conforme lhes permite a sua condição financeira. Se, no passado, o cosmopolitismo era um privilégio e uma marca de distinção e de superioridade moral das elites, isso não deixa de continuar a ser verdade hoje, se bem que a circulação global de mercadorias e imagens possibilite que uma pessoa seja cosmopolita sem sair do lugar. Surgem, um pouco por todo o mundo, enclaves cosmopolitas habitados e frequentados por expatriados endinheirados, resorts turísticos para quem os puder pagar e todo o tipo de pacotes de viagens para consumo turístico, enquanto se erguem muros e vedações destinados a constranger a circulação dos mais pobres. É um tipo de circulação destinado ao consumo e que não promove verdadeiramente o encontro com o outro e a imersão cultural. A circulação global desregulada de capital facilitou a progressiva acumulação de capital por parte de poucos, aumentando o desemprego e a pobreza. Na base deste processo de globalização estão os excluídos, que respondem a este processo com políticas de identidade, reivindicando direitos para as minorias, por um lado, e com reações nativistas e de reforço do nacionalismo, por outro.

Cosmopolitismo e racismo: o caso de Lisboa

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Cova da Moura. Fonte: Antje Kind (Flickr)

Duas coisas me têm acontecido com frequência desde que comecei a fazer trabalho de campo e a escrever sobre a Cova da Moura, um bairro pobre, auto-construído, de migrantes e seus descendentes, periférico geográfica e socialmente em relação a Lisboa: uma é encontrar pessoas que nunca visitaram o bairro, que só o conhecem das notícias publicadas na comunicação social, geralmente bastante prejudiciais para a imagem dos residentes, mas que falam como se já lá estivessem estado e amiúde me perguntam se não tenho medo de lá ir; outra é encontrar pessoas, muitas, que, de facto, estiveram lá, normalmente no âmbito de alguma atividade de voluntariado, a dar formação, a fazer investigação, que visitaram o bairro durante uma das suas festas ou participaram numa visita guiada.

Diz-se de Lisboa que é uma cidade cosmopolita. No entanto, um olhar atento nota facilmente espaços segregados e pessoas que não se misturam. A cidade promove a sua diversidade para atrair turistas, mas a mercantilização e turistificação da sua multiculturalidade não correspondem, de todo, ao igual direito à cidade e à cidadania por parte de todos os lisboetas. As pessoas que foram sujeitas a processos de etnicização e de racialização vivem maioritariamente na periferia e em bairros como a Cova da Moura, e estão mais vulneráveis a processos de discriminação,  segregação, exclusão, exploração e expropriação, e à vigilância e violência policial.

Lisboa tem tido sucesso na atração de capital estrangeiro, mas isto tem-se traduzido na privatização de espaços públicos e na agudização das desigualdades. Este processo concorre com outro, histórico, de perpetuação do racismo, um sistema de relações de poder assimétricas construído a favor de um grupo social privilegiado, empurrando outros para processos de alterização – os processos de racialização e de etnicização de que falei anteriormente. De facto, o cosmopolitismo de Lisboa foi historicamente construído a partir de um processo violento de expansão e colonialismo que, ainda hoje e apesar do 25 de Abril de 1974 e do processo de descolonização, se tem dificuldade em reconhecer, e em assumir, em particular, as suas continuidades no presente. A narrativa do lusotropicalismo e dos descobrimentos, por um lado, e a  recusa de quem beneficia deste sistema em falar de racismo, por outro, contribuem para o negacionismo e o branqueamento desta história e seus efeitos no presente e para a produção e reprodução de preconceitos e estereótipos que alimentam o racismo, mesmo com a comercialização da diversidade e a possibilidade de viajar e conhecer outras realidades acessíveis a muitos. Só assim se explica a disponibilidade de muitas pessoas para acreditarem nas notícias de exagerado crime e violência publicadas na comunicação social sobre, por exemplo, o bairro do Alto da Cova da Moura, e o facto de as narrativas trazidas de lá por quem visita o bairro não serem suficientes para contrariar este complexo processo de cosmopolitismo racista.


Susana Boletas é antropóloga. Presentemente faz doutoramento em Antropologia no ICS-ULisboa, na especialidade de Antropologia do Político e da Etnicidade, tendo como tema Cova da Moura: espaço e margem na Área Metropolitana de Lisboa.

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