A europeização e as territorialidades desencontradas

Por: Inês Gusman

Ainda que quotidianamente lhe possamos dar outros usos, numa perspetiva geográfica, o território é comummente considerado uma porção do espaço à qual se atribui algum tipo de singularidade. Adquire, por isso, diferentes formas e escalas, podendo ter distintas origens, entre elas, política, física, cultural ou histórica. Nos anos 80 do século XX, o geógrafo Robert Sack chamou a atenção para o facto de os territórios surgirem a partir de um conjunto de processos físicos e/ou simbólicos que denominou territorialidade, cujo objetivo é “afetar, influenciar e controlar pessoas, fenómenos e relações” no espaço. Ainda que, tradicionalmente, a forma como as sociedades entendem e interagem com o espaço e com as suas divisões esteja fortemente influenciada pelas práticas dos Estados, a territorialidade não é um fenómeno exclusivamente estatal. As mudanças políticas e tecnológicas das últimas décadas, a intensificação da mundialização das relações sociais e económicas, juntamente com os avanços dos debates académicos sobre o território, vieram evidenciar isso mesmo. Importa, no entanto, compreender que territorialidades são estas e quais os seus principais alcances.

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Pegadas Digitais

Por: Ana Delicado e Jussara Rowland

Quando se discute a “pegada digital”, geralmente refere-se ao “rasto” que as nossas atividades online deixam. O que decidimos partilhar (ou que partilham de nós) – as nossas fotos e vídeos, os nossos comentários, os textos que escrevemos para websites, etc. – e a informação que plataformas digitais recolhem com, ou sem, o nosso consentimento – as pesquisas que fazemos, os nossos dados de geolocalização, o nosso historial de navegação, etc. As vantagens associadas a esta pegada são conhecidas. Não só funciona como “cartão-de-visita” ou arquivo digital pessoal, como permite uma maior personalização da nossa experiência na internet, através da seleção algorítmica de conteúdos considerados mais relevantes para o nosso perfil. Mais conhecidos ainda são os riscos que lhes estão associados: problemas de privacidade, publicidade intrusiva, roubo de identidade, fraude, hacking, discriminação, etc.

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“A Vida por cima d’Água”: antropologia implicada por quem trabalha a pesca em Setúbal 

Por: Joana Sá Couto e Vanessa Iglésias Amorim

Surgido a partir de uma colaboração entre a Câmara Municipal de Setúbal e a Setúbal Pesca Associação da Pesca Artesanal, e inserido na Semana dos Bivalves, o evento “A Vida Por Cima d’Água: Encontro de Pescadores e Mostra de Artes e Ofícios da Pesca”, que aconteceu na Casa da Baía nos dias 4 e 5 de março, em Setúbal, teve como objetivo a valorização da comunidade piscatória setubalense. Para esta iniciativa foi essencial a articulação entre elementos da Setúbal Pesca e os trabalhadores de diferentes departamentos do Município: do Gabinete de Projetos Enogastronómicos, do Centro de Memórias do Museu do Trabalho Michel Giacometti (MTMG) e do Departamento de Comunicação. A pedido da Associação Setúbal Pesca, também nós, enquanto antropólogas e pessoas ligadas afetivamente ao terreno de investigação, lançámo-nos ao desafio de apoiar este evento com o intuito de navegar as narrativas da pesca com a sensibilidade de quem a conhece. Este post tem como objetivo refletir sobre esta colaboração a partir da nossa perspectiva, reconhecendo que uma investigação implicada pode contribuir para a valorização dos trabalhadores da pesca e da própria actividade.

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Mind the gaps: strengthening adaptation in the critical decade

By: Carla Gomes

As we enter 2023 in full speed, we realise that our ‘critical decade’ for substantial climate action is shrinking fast. Emissions needed to be reduced by 45% by 2030, towards net zero by 2050, to keep the global temperature rise under 1,5º. At the last annual conference of the UNFCCC (United Nations Framework Convention on Climate Change), the COP27, that ‘ideal target’ was abandoned in practice, but even 2º is now unlikely. As emissions keep rising, the fossil fuel industry is under increasing pressure to decarbonise or shut the door. Adaptation is now unavoidable, but there are critical adaptation gaps that we will have to address over the remaining years up to 2030. We discuss some of them in this post.

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