Ciência cidadã de iniciativa comunitária

Por Ana Delicado

No dia 25 de novembro decorreu na Biblioteca Municipal de Oeiras um colóquio sobre as cheias de 1967. Até aqui nada de novo, a efeméride dos 50 anos desta catástrofe foi celebrada em várias localidades afetadas e também através de documentários televisivos e reportagens alongadas na imprensa. O que distingue o colóquio Rios de Lama é ser o culminar de um processo de ciência cidadã verdadeiramente inovador.

Em 2014, as Bibliotecas Municipais de Oeiras lançaram o projeto Histórias de Vida, com o objetivo de recolher e registar histórias de pessoas da comunidade nascidas antes de 1955 e cruzá-las com a história local. O grupo, moderado por Ana Santos, bibliotecária, reunia-se regularmente na biblioteca de Algés, num processo que acompanhou o percurso de vida de cada um e permitiu a partilha de memórias e experiências. No final do ano seguinte a autarquia contratou uma empresa de media para dar apoio aos trabalhos do grupo, proporcionando-lhes formação em digital storytelling e criando uma plataforma onde os registos vídeo e áudio das histórias de vida foram disponibilizados.

Ana Delicado_cheias 1967 (foto arquivo)
Fotografia de arquivo, autor não identificado, incluída no vídeo “As cheias de 1967”, realizado no âmbito do projeto Histórias de Vida

Um dos eventos que recorrentemente surgiu nas histórias de vida recolhidas é o das inundações de 1967, que causaram no concelho de Oeiras avultados prejuízos e pelo menos 33 mortos (os contabilizados oficialmente). Alguns membros do grupo decidiram então aprofundar a pesquisa sobre este acontecimento marcante da sua comunidade.

Curiosamente, a que é considerada a catástrofe natural mais grave do país desde o terramoto de 1755 mereceu muito pouca atenção por parte do mundo académico. Parágrafos isolados em grandes coletâneas da História de Portugal (por exemplo, no volume 18º da obra de Joaquim Veríssimo Serrão, 2010), destaques em estudos sobre o movimento estudantil do final dos anos 1960 ou análises da cobertura noticiosa do evento na televisão e na imprensa estão entre as poucas exceções. O âmbito do projeto Disaster: Desastres naturais de origem hidrogeomorfológica em Portugal, realizado por uma equipa do IGOT/ULisboa, com o objetivo de construir uma base de dados SIG para apoio à decisão no ordenamento do território e planeamento de emergência, fez-se o mapeamento das cheias e deslizamentos de terra em todo o país e a contabilização das respetivas vítimas, desde meados do século XIX, com base em notícias de jornais. No entender do seu coordenador, as inundações de 1967 destacam-se largamente:

1967 é um outlier brutal (…) o número que aparece porque está nos jornais está curto (…) durante três dias não houve censura, isso a gente lê os jornais e percebe, e depois a partir de três dias nunca mais morreu ninguém (…) o número oficial (…) eram trezentos e qualquer coisa, de facto nos jornais conseguimos apanhar 522, foram mais garantidamente, exatamente quantos não sabemos mas foram mais (entrevista realizada no âmbito do projeto CUIDAR a José Luís Zêzere, IGOT/ULisboa, 2017)

Estas análises breves são unânimes em assinalar a relevância social e política desta catástrofe, que pôs a nu as consequências do desordenamento das periferias de Lisboa em resultado do êxodo rural, as condições de vida miseráveis de franjas da população suburbana, as insuficiências do Estado Novo na resposta a emergências, a ação da censura que impediu a divulgação do número total de vítimas, a emergência da consciencialização política dos estudantes e a entreajuda nas comunidades afetadas. E, no entanto, este fenómeno não mereceu ainda uma investigação histórica ou sociológica aprofundada.

Foi perante esta carência que alguns membros do Grupo Histórias de Vida se mobilizaram para pesquisar o evento em diversas vertentes. A história local muito deve ao contributo de historiadores amadores, que se dedicam a temas que muitas vezes os historiadores académicos consideram menores. Mas este projeto distingue-se pela forma sistemática e contextualizada como o tema foi tratado, pela enfâse dada ao testemunho oral (ainda hoje relativamente pouco valorizado pela historiografia académica) e pela colaboração, ainda que ténue, com o meio universitário. Paulo Gameiro, docente do ensino secundário, explorou o aspeto geográfico das inundações, com base na informação meteorológica disponível. Ana Paula Torres, professora de história aposentada, analisou os impactos das inundações, em particular no concelho de Oeiras, bem como os fatores que terão agravado a catástrofe a ação desenvolvida pelas instituições oficiais e não governamentais, com base em análise documental e nos relatos recolhidos, o que deu origem ao livro «As “Gotas de Ar Frio” que Inundaram a Grande Lisboa —Memória das Cheias de 1967 — O Concelho de Oeiras» (que inclui uma lista das vítimas). Helena Abreu, orientadora escolar reformada, investigou a explosão do paiol do Carrascal em Linda-a-Velha, recolhendo relatórios militares e camarários, notícias de imprensa e testemunhos da época e contando com o auxílio do coronel de engenharia José Santos Coelho para a interpretação dos detalhes técnicos (um trabalho que viria a servir de base a uma reportagem no Público).

Ana Delicado_coloquio rios de lama (CM Oeiras)
Colóquio “Rios de Lama”, 25/11/2017, fotografia da Câmara Municipal de Oeiras.

Este trabalho teve o apoio, mais moral que efetivo, de investigadoras do GI ATS, eu própria e Dulce Freire. Uma reunião em março de 2017 e algumas trocas de emails e materiais permitiram discutir eventuais fontes de informação a pesquisar e formas de analisar a informação recolhida, bem como formular a proposta de realizar um colóquio em torno do tema. O colóquio acabou por incluir intervenções dos membros do Grupo Histórias de Vida, das investigadoras do ICS/ULisboa, de Maria Manuela Mota, antiga Conservadora do Museu Calouste Gulbenkian, e de Diana Andringa, jornalista e ex-dirigente académica.

Este é, pois, um projeto de ciência cidadã que partiu de cidadãos e não de académicos, o que o torna uma raridade num panorama que é totalmente dominado por projetos propostos por cientistas em que os cidadãos são convidados a participar, na maior parte dos casos apenas na fase de recolha de dados. A 26 de outubro de 2017 realizou-se o Encontro Nacional de Ciência Cidadã, por iniciativa da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia, e entre as dezenas de projetos apresentados nenhum tinha estas características. Do mapeamento colaborativo com pescadores dos mares do Algarve à identificação de espécies invasoras, da classificação de galáxias à participação cidadã no desenho de estratégias locais de adaptação às alterações climáticas, são múltiplas as iniciativas de aproximação dos cidadãos à ciência através da inclusão no processo de investigação científica. No entanto, são projetos em torno de questões formuladas por cientistas e respondidas através de metodologias desenhadas por cientistas. Há ainda um longo caminho a percorrer para equalizar os termos da equação: incluir os cidadãos na escolha dos temas a investigar, na conceção das metodologias, na interpretação e publicação dos resultados. Essa sim será uma verdadeira ciência com e para a sociedade.

Nota: Agradeço a Helena Abreu o apoio na revisão deste texto.


Ana Delicado é investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa). ana.delicado@ics.ulisboa.pt. Perfil no site do ICS

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