Da cloaca ao sistema alimentar urbano

Por Rosário Oliveira

Em 2000, Wim Delvoye dava início a uma parafernálica instalação que tinha como objetivo demonstrar a transformação do alimento no aparelho digestivo humano através de sete máquinas que reproduziam os sucos e as etapas deste processo, essencial para satisfazer uma das necessidades vitais de qualquer ser vivo: alimentar-se.

A inspiração deste artista conceptual belga terá sido influenciada pelo aceso debate que decorreu no centro da Europa em torno da Política Agrícola Comum (PAC), da qualidade ambiental e da segurança alimentar, o que motivou, primeiro, a definição de estratégias de planeamento alimentar urbano e, depois, a sua implementação. Curiosamente, à semelhança da dinâmica do processo de planeamento, também a instalação de Delvoye foi evoluindo ao longo deste período, estando em condições de ser exposta no início de 2008 no Forum d’Art Contemporain, no Luxemburgo, com o título ‘Cloaca 2000–2007’ (https://wimdelvoye.be/work/cloaca).

Recorrer ao trabalho de Delvoye permite evidenciar a importância da alimentação no funcionamento do metabolismo humano e, por inerência, no metabolismo urbano, entendido como a entrada e saída de fluxos, materiais e energia num dado território. Enquanto se desenvolvia esta obra, mudanças radicais na organização do mercado mundial de alimentos foram acentuadas, apoiadas por sistemas de transporte de longa distância e por tecnologias de refrigeração e processamento industrial de alimentos, mudando radicalmente a maneira como os citadinos se relacionam com os produtos de que se alimentam, relegando a sua produção e transformação para uma espécie de paisagem rural abstrata.

No quadro das mudanças globais resultantes da tendência da mega urbanização, crescimento da população mundial, degradação dos recursos naturais e aquecimento global, com impactos ambientais e socioeconómicos severos, o abastecimento alimentar das cidades é, provavelmente, um dos tópicos fundamentais para levar em consideração na teoria e nas práticas inerentes à formulação de políticas urbanas.

Países como a Holanda, a Inglaterra e a França começaram nesta década a reagir politicamente à necessidade de um planeamento alimentar que pudesse influenciar o sistema alimentar a vários níveis: segurança alimentar e nutricional, sustentabilidade ambiental, eficiência energética, justiça social, governança, etc. A alimentação passou, assim, a ser tida como essencial no pensamento sobre a resiliência e na criação sustentável de lugares, numa atitude de place-making e de community building.

Um dos conceitos fundamentais que foi veiculado através das estratégias e das iniciativas levadas a cabo, foi o de que as etapas do sistema alimentar urbano (produção, processamento, distribuição, consumo e resíduos) têm uma tradução direta em termos espaciais. Portanto, são propensas à criação de lugares potencialmente sustentáveis se tiverem por base os princípios da economia circular: áreas agrícolas rurais, periurbanas e urbanas produtivas relacionadas com as infraestruturas verdes, redes de circulação pedestres e ciclovias conectadas com circuitos de distribuição e consumo de alimentos, mercados de agricultores, novas tipologias de construção e de produção energética.

O Pacto Alimentar Urbano de Milão (2015) veio expandir a adesão de mais de 130 cidades aos princípios do planeamento alimentar urbano. Em Portugal, já aderiram cerca de 30 municípios, com iniciativas neste âmbito, embora ainda haja muito por fazer.

A investigação desta temática sob diversas perspetivas está a ser prosseguida por investigadores do Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade, sendo um dos seus objetivos encontrar soluções inovadoras para a integração do planeamento alimentar na agenda do planeamento urbano e regional, através de uma abordagem funcional, promotora da dinâmica urbano-rural e dos fluxos e metabolismos necessários para assegurar a segurança alimentar das áreas metropolitanas.

2017_Alfaces na avenida

Reconhecendo a importância desta linha de investigação em diversas Faculdades da Universidade de Lisboa, o Colégio F3 – Food Farming and Forestry dedica o tema ‘Sustentabilidade Alimentar das Cidades’ à 2ª Conferência Anual do Colégio, onde será também apresentado o livro ‘Alfaces na Avenida – Estratégias para (bem) alimentar a cidade’, que reúne 19 capítulos da autoria de investigadores de 12 Escolas da Universidade de Lisboa. É já no dia 2 de Novembro e o acesso é público http://conferenciaanual2017.colegiof3.ulisboa.pt.

Este será o momento em que o CF3-Universidade de Lisboa lança um apelo junto de académicos, políticos, decisores e da sociedade em geral, para o que Wim Delvoye, com a sua Cloaca, já nos interpelava há uma década atrás. É tempo, agora, de encurtar caminho e começar a definir e a implementar estratégias de planeamento alimentar em Portugal que permitam (bem) alimentar as cidades numa perspetiva de sustentabilidade alimentar e territorial.


Rosário Oliveira é Arquiteta Paisagista, Investigadora Integrada no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e membro do Colégio F3 – Food Farming and Forestry da Universidade de Lisboa.

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