Que se precisa, pois? – Depois dos fogos, uma pergunta com 202 anos

Por Pedro Almeida Vieira

José Bonifácio de Andrada e Silva, antes de se tornar o Patriarca do Brasil, publicou em 1815 um livro intitulado Memória sobre a Necessidade e Utilidade do Plantio de Novos Bosques em Portugal. Preconizava ele o plantio de pinheiro no litoral, mas sobretudo uma boa gestão, algo que então não vislumbrava. As suas críticas, a um país que se achava com vocação florestal, mas não passava de um país de charnecas, mostravam-se demolidoras.

Atente-se a este trecho:

«Que se precisa, pois? Precisa-se quanto antes de uma boa Administração, única e enérgica; precisa-se de novos Regulamentos, assim gerais como particulares, acomodados às circunstâncias do Estado e às localidades particulares de cada distrito, em que se aproveitem as boas ideias antigas, e se corrijam as más por outras melhores, fundadas em princípios científicos e na experiência dos Séculos, cuja execução seja cometida somente a uma Directoria única e poderosa, que dirija e vigie com a mais sisuda atenção sobre os Administradores particulares, que se devam conservar, e sobre os novos que de sevam criar. Só assim se realizarão os magnânimos desejos de nossos Príncipes, sem desgraçados empates, rivalidades e oposições; só assim haverá economia e responsabilidade; só assim, com o andar do tempo, haverá Oficiais instruídos e capazes, que obrando debaixo de princípios certos e harmónicos hajam de tirar ramos tão importantes do abatimento e miséria em que ora jazem, e de os aproximar gradualmente ao Ideal de perfeição que devem ter. Permita o Céu que o bom Príncipe, que como Pai nos governa, livre dos cuidados da Guerra, possa dar a este mal o remédio que tanto precisa.»

2017_Capa_Livro_Blogue ATS

Hoje, no ano em que arderam mais de meio milhão de hectares e morreram 110 pessoas vítimas de incêndios inclementes, poucos podem acreditar que, de facto, somos um país de vocação florestal. De facto, pode custar, mas temos de nos consciencializar que só com muito trabalho e uma boa organização, como defendia há dois séculos Andrada e Silva, podemos almejar uma floresta economicamente sustentável. Infelizmente, estamos longe; temos estado mais próximos de uma pira de lenha letal: desde o início do século arderam cumulativamente mais de 2,5 milhões de hectares, isto é, quase 30% do território nacional. E o saldo de vidas humanas ronda quase 200.

2017_Imagem_Fogo_Blogue
Autor: Steve McCaig (licença Creative Commons)

Foi porventura, ou por mal ventura, que fomos julgando ter, ao longo de algumas décadas do século XX, vocação florestal. Nunca tivemos; aparentámos ser quando o país era demograficamente equilibrado em termos territoriais. Deixámos de ter definitivamente quando a litoralização do país se intensificou e, pior ainda, quando o mundo rural começou a desaparecer. Portugal já não é o país rural que foi no final do século XIX, em que 70% da população vivia em aldeias. Manter a floresta que começámos a «fabricar» exigia, aquando do processo de despovoamento rural, medidas políticas. Mas nem políticas nem políticos. Hoje, os distritos do interior, que representam mais de 60% do território nacional, elegem apenas 55 deputados (24% do total).

Tem sido muito este mito – o da vocação florestal, ou seja, fazer com pouco trabalho – a trazer-nos amargos de boca. Mas há muitos mais. De uma forma sintética, outro é o do incendiarismo. Não há responsável político, bombeiro, jornalista, homem do café, que não sentencie que, quando há grandes incêndios, todos são causados por incendiários organizados. Este ano falou-se mesmo em terrorismo. Não há estudos portugueses, como os do ICNF, ou espanhóis, como os compilados pela La Fundación Ciudadana Civio, que consigam quebrar o mito dos incendiários. E, enquanto isso, cometem-se os actos mais negligentes, não se fazem limpezas, nem manutenção de linhas eléctricas – que, aliás, segundo um especialista da Universidade de Coimbra foi a causa do fogo de Pedrógão Grande.

Outro mito para justificar os constantes desastres tem sido o do tempo quente e seco – que, há uns bons milhares de anos por aqui passa em território mediterrâneo. Não parece existirem dúvidas de se fazerem já sentir em Portugal os efeitos das alterações climáticas, confirmando, aliás, estudos científicos que apontavam para o aumento do risco de incêndios e do prolongamento temporal dos períodos críticos. Porém, risco não é sinónimo de certeza; pelo contrário.

Na verdade, tempo quente, seco e ventoso, ou seja, a ocorrência simultânea dos três 30 (mais de 30 graus de temperatura, menos de 30% de humidade relativa e mais de 30 km/hora de velocidade do vento) aumenta o risco. Porém, risco não deveria ser sinónimo de destino, se existisse, nessas condições especiais, uma boa gestão florestal, um reforço da vigilância e de prevenção e uma correcta localização de brigadas de primeira intervenção. De facto, em Espanha não acontece assim; no decénio 2007-2016 somente 37% dos grandes incêndios ocorreram em condições meteorológicas extremas de temperatura, vento e humidade.

Por fim, o derradeiro mito: aquele que defende, com unhas e dentes, que o combate aos incêndios florestais se mostra mais eficaz quando executado com abnegação, com paixão, pelos bombeiros voluntários. Muito se poderia argumentar sobre essa falácia, mas quer-se aproveitar esta ocasião para recordar uma «batalha» análoga empreendida por Miguel Bombarda que, desejando no início do século XX, a profissionalização da enfermagem, por se mostrar mais eficaz, recebeu forte oposição das «voluntárias» freiras. Hoje, ninguém questiona que a enfermagem profissional é mais eficaz e eficiente que a voluntária.


Pedro Almeida Vieira é engenheiro biofísico e autor do livro «Portugal: O Vermelho e o Negro»

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