CIDADES MÉDIAS: UM RETORNO RECORRENTE?

Por: João Ferrão

Crise sanitária, uma nova oportunidade para as cidades de média dimensão?

No início de 2021, a Fabrique de la Cité, um grupo de reflexão dedicado à prospetiva e às inovações urbanas, anunciou os três vencedores do concurso “França das Cidades Médias”, organizado em parceria com o Lire Literary Magazine. Este concurso visava premiar as melhores histórias curtas sobre Cidades Médias, estatisticamente definidas naquele país como tendo uma população entre 20 mil e 200 mil habitantes. Foram recebidas cerca de 750 candidaturas, tendo sido selecionadas 14 para publicação. A sessão de atribuição destes prémios culminou um processo participado de avaliação da importância e do papel atribuídos pelos franceses às cidades de média dimensão no novo contexto marcado pelos impactos da pandemia da Covid-19. Uma iniciativa inspiradora, que poderia ser replicada em Portugal

Em julho de 2020, isto é, logo após o primeiro confinamento provocado pela pandemia, a Fabrique de la Cité tinha divulgado um texto – Les villes moyennes, entre imaginaires et complexité – em que se questionava a “fantasia” de opiniões então em expansão que previam que a situação que se vivia iria suscitar uma profunda transição urbana, através da fuga dos desiludidos das metrópoles para cidades de menor dimensão. Apresentada por alguns como “a vingança das cidades médias em relação às metrópoles”, esta perspetiva foi em parte estimulada no espaço público por eficientes estratégias de comunicação desenvolvidas por diversas cidades com o objetivo de atrair empresas, profissionais qualificados e turistas tendo como referência atributos como a existência de espaços adequados, infraestruturas verdes e ar com qualidade. Ou seja, paradoxalmente, cidades médias economicamente em crise procuravam encontrar numa outra crise – sanitária – uma oportunidade para recuperar um dinamismo perdido. Nesse mesmo mês a Fabrique de la Cité publicou o texto Ode às Áreas Urbanas de Média Dimensão, relançando um debate recorrente nas políticas francesas de ordenamento do território e de desenvolvimento regional: o papel das cidades médias no combate ao agravamento das assimetrias territoriais decorrentes das tendências de metropolização.

As cidades médias estão de volta?

É neste contexto que tem início o projeto Cidades Médias, desenvolvido pela Fabrique de la Cité em parceria com outras entidades. Este grupo de reflexão, ciente da existência de representações múltiplas e contraditórias sobre as cidades médias, formulou provocatoriamente a seguinte questão de partida: “A” cidade média existe? 

Toulouse, um dos estudos de caso analisados
Fotografia: Strikis (2013) – Wikimedia Commons

A primeira edição dos Encontros das Cidades Médias, realizada em novembro de 2010, colocou nas agendas mediática e política de França o tema das cidades médias, nomeadamente através da divulgação dos resultados de um estudo encomendado pela Fabrique de la Cité – Os Franceses e as Cidades de Média Dimensão – que visava entender, com base num inquérito de âmbito nacional e em 4 estudos de caso, em que medida a comunicação social teria contribuído para a construção de uma imagem positiva sobre as cidades médias no novo contexto de pandemia, confinamento e crise sanitária. Os resultados obtidos, que procuravam identificar respostas para as questões enunciadas no quadro que se segue, tiveram um impacto relevante nos media.

Os Franceses e as Cidades de Média Dimensão

Sumário

1. Quais as perceções dos franceses sobre as cidades médias?
2. O confinamento revelou uma apetência por espaço e pela natureza por parte dos franceses?
3. Quais os fatores atrativos das cidades médias?
4. A expansão do teletrabalho favorece o êxodo urbano?
5. É necessário redescobrir o encanto das cidades médias?
6. A habitação é um dos desafios mais importantes, em particular para atrair e manter os jovens?
7. As cidades de média dimensão são populares?
Fonte: elaboração própria a partir da informação disponível em https://www.lafabriquedelacite.com/ (acesso: 9 de abril de 2021)

Cidades médias: reptos comuns, caminhos distintos

Menos de um mês depois, foi colocado no sítio da Fabrique de la Cité um texto de síntese intitulado De Regresso ao Mapa: as Cidades Médias entre o Relançamento e a Estabilidade (Refaire partie de la carte: des villes moyennes entre rebond et stabilisation). Este texto sistematiza em torno de 6 ideias principais os resultados dos debates realizados:

  • A necessidade de fazer regressar as cidades médias ao mapa mediático, ao mapa da ação pública, ao mapa mental dos franceses e ao mapa da produção artística;
  • A importância das representações sociais sobre as cidades médias como espaços de charneira, isto é, como lugares caracterizados pelo “e” (equilíbrio de qualidades distintas) e não pelo tradicional “nem” (nem metrópoles, nem campo);
  • A probabilidade de as cidades médias serem as principais beneficiárias de uma possível recomposição territorial das dinâmicas demográficas e económicas, desde que consigam desenvolver estratégias eficientes de atração e retenção de jovens e estudantes;
  • A necessidade de estabilizar uma imagem e uma narrativa positivas, ao nível externo e interno, sobre as cidades médias beneficiando do impulso dado pela crise pandémica;
  • A identificação de um modelo de desenvolvimento não-metropolitano e não-rural ajustado à história e às condições de cada uma das cidades médias;
  • O desenvolvimento, por cada cidade média, de estratégias de interdependência, complementaridade e cooperação urbana e territorial construídas a partir dos fatores em que apresentam uma maior diferenciação positiva e apoiadas em infraestruturas digitais de elevada qualidade.

Complementarmente, são identificados os três obstáculos que, de acordo com as entidades e os cidadãos envolvidos nos debates, mais dificultam o efetivo aproveitamento do atual momento de reconhecimento, atratividade e dinamismo atribuídos às cidades médias: recursos financeiros insuficientes, capacidade limitada de fazerem ouvir a sua voz e ausência de uma visão estratégica clara e estável de desenvolvimento territorial por parte do Estado que proporcione um contexto de previsibilidade a cidadãos, empresas e outras organizações.

Em Portugal, o Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território (2019) atribui grande importância à afirmação das cidades médias no contexto de consolidação de um sistema urbano policêntrico
Fonte: https://pnpot.dgterritorio.gov.pt/sites/default/files/SQ_Vconc_PNPOT_0.pdf (acesso: 9 de abril de 2021)

“O destino de uma cidade não depende da sua dimensão”

Os debates suscitados pela Fabrique de la Cité procuraram combater duas visões “essencializadas, generalizadas e quase caricaturais” das cidades médias: até à pandemia, territórios condenados ao declínio demográfico e económico; com a pandemia, o novo El Dorado para os que querem escapar aos impactos sociais e económicos da crise sanitária, sentidos com particular intensidade nas metrópoles.

 O universo das cidades médias francesas, como em qualquer outro país, é estruturalmente diversificado e gera representações diversas e mesmo contraditórias. Mas ao conquistarem uma nova atenção, estas cidades ganharam um novo reconhecimento e, talvez, condições para um novo fôlego.

Nos anos 1960 as cidades de média dimensão estiveram no centro da teoria dos polos de crescimento, beneficiando de generosos apoios públicos para se afirmarem como concentrações qualificadas de serviços administrativos e de indústrias inovadoras capazes de promover dinâmicas sustentadas de desenvolvimento regional.

Nos anos 1990 as cidades médias, então apelidadas de intermédias para salientar o seu potencial relacional, foram vistas como nós estratégicos de redes urbanas nacionais e transnacionais que no seu conjunto garantiam a escala e a complementaridade de funções especializadas que cada cidade por si só não poderia alcançar.

Decorridas outras três décadas, as cidades médias regressam pelo quadro de vida equilibrado que proporcionam e pela escala manuseável para concretizar as diversas transições politicamente ambicionadas – alimentar, verde, digital, demográfica, etc. Há quem diga que os gatos têm 7 vidas. As cidades médias – ou pelo menos algumas delas – vão agora na sua terceira vida. E é possível que venham a ter mais… Um bom tema para debate num ano em que teremos eleições autárquicas.


João Ferrão é doutorado em Geografia pela Universidade de Lisboa e investigador coordenador aposentado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa). Joao.ferrao@ics.ulisboa.pt

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