Mapear, refletir o território

Autor convidado: Duarte Belo

A vontade de fotografar a “totalidade” do espaço urbano de uma cidade era um desejo antigo. Viseu, com uma área relativamente contida, era um bom desafio para começar esse levantamento. Enquanto decorriam as primeiras fotografias, é lançado pela Câmara Municipal de Viseu um concurso de apoio à criatividade, Viseu Terceiro. Apresento uma proposta à submissão do júri, que é aprovada com um financiamento parcial. Continuo o trabalho sobre a cidade, mas extendo-o a todo o território municipal. São pouco mais de 500 quilómetros quadrados para fotografar. O critério seguido foi o tentar “varrer” todo o espaço do concelho, mas rapidamente esta tarefa se mostrou labiríntica. As estimativas iniciais, de quilómetros percorridos, de lugares fotografados, de fotografias feitas, foram largamente superadas.

Pretendia-se, à partida, elaborar uma recolha fotográfica com carácter documental por forma a registar aspetos estruturais de todo o território de Viseu, pormenores das diversas áreas que o constituem, bem como aspetos do enquadramento das várias povoações (com uma particular atenção dada à cidade de Viseu, mas também às sedes de freguesia e todas as aldeias do concelho), património edificado, detalhes de edifícios e aspetos da rede viária. A par de um olhar descritivo, procura-se também uma leitura sensível, ou a busca do caráter diferenciado das várias áreas geográficas e urbanas, não apenas dentro do concelho de Viseu, mas, também, da face distintiva deste território, paisagem e arquiteturas a nível nacional. O conjunto de fotografias quer-se constituir como fixação do território no tempo presente, de modo a definir uma memória para o futuro e, simultaneamente, uma base de imagens para, eventualmente, apoio a trabalhos futuros em diversas áreas.

De acordo com experiências feitas no passado, havia uma estimativa para fazer cerca de 12.000 fotografias em suporte digital, constituindo o conjunto das imagens um arquivo relativamente coerente. Não havia um número pré-determinado de aldeias a fotografar, mas foi com espanto que na contabilidade final foram apuradas 240 povoações registadas e, praticamente, todas as ruas da cidade. De uma avaliação prévia de cerca de 12 dias de campo, foram feitos 33 dias no terreno, e mais de 1.800 quilómetros percorridos. Em 4 meses foram feitas mais de 55.000 fotografias.

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Os critérios de fotografias de campo não obedeceram a princípios formais definidos. Não houve respeito por parâmetros concetuais de qualquer espécie, nem a escolha de situações de luminosidade pré-definidas e procuradas deliberadamente. Há, sim, uma tentativa de percorrer todos os lugares construídos, pois estes são aqueles que mais “escondem” na intrincada malha das suas ruas. Há sempre situações específicas, ou irrepetíveis, arquiteturas singulares que respondem a necessidades concretas. É nas aldeias que melhor podemos observar o engenho humano individual na resolução de problemas concretos, exercícios de liberdade, muitas vezes com meios muito precários. Depois há uma reinterpretação da arquitetura tradicional, há o emprego de novos materiais de construção, há um jogo de gestos livres que culmina em arquiteturas inusitadas. Nem sempre a imagem é agradável, integrada numa antiga tradição de bem construir. Há, pelo contrário, uma aparência de caos, de afastamento a uma antiga harmonia, que, no entanto, era muito o resultado da falta de soluções alternativas e de uma extrema pobreza.

Este trabalho viria a acrescentar uma visão nova no conjunto de anteriores abordagens desenvolvidas no contexto de outros projetos, não apenas sobre uma região contida, mas mesmo sobre o espaço português na sua totalidade. Houve aqui um levantamento fotográfico consideravelmente mais minucioso do que havia feito no passado. Há a relação de uma cidade com o espaço rural que lhe é imediatamente próximo. Tão próximo e, por vezes, tão distante. Era uma relação de ocultação, “civilizações” fechadas sobre si próprias, sobre a terra, os trabalhos agrícolas, gestos repetidos, sofridos, pobres, alicerçados numa atividade da qual dependia uma subsistência precária. A imagem das aldeias parecia ser a metáfora de um mundo de miséria que se queria deixar, e que, verdadeiramente, já estava em abandono progressivo, em muitos casos decadente. Casas reconstruídas sobre espaços mínimos nos primitivos burgos, outras abandonadas, ruínas, ao redor uma periferia de casas novas, muitas delas fechadas, inabitadas. O mundo contraditório de uma ruralidade perdida, onde os campos abandonados são devolvidos à Natureza. Ao mesmo tempo a cidade parece caminhar para um equilíbrio na gestão do seu território de ruas e avenidas. O centro histórico é recuperado, as arquiteturas dos bairros novos é cada vez mais qualificada. Há um mundo de duas faces que se parece antagonizar de forma acentuada.

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(1996), em exposição no Museu Almeida Moreira, Viseu

As fotografias descrevem fragmentos mínimos de um território. Ambicionam, as imagens, a um certo documentalismo, mas não podem deixar de recorrer a um olhar próprio, preso à identidade de quem o regista. Há várias questões que permanecem nestas abordagens: o que é a ciência e o que é a arte no âmbito da fotografia? Como ambas, de forma diferenciada, constroem conhecimento? Para onde nos conduzem as imagens? Que mundo nos mostram? Que territórios derivam desse contacto prolongado com o “campo” e com a sua representação? Há uma miríade complexa de respostas. Há um tempo que passa que, constantemente, desejamos fixar, talvez por ser demasiado célere e imprevisível no seu arrasto. Há um espaço que aparentemente conhecemos, mas não, não temos, geralmente, a perceção das suas dimensões menos evidentes e mais densas. Tensas. Somos conduzidos por uma realidade avassaladora. Por fim, ao mesmo tempo que nos tentamos aproximar dos lugares que registamos, vamos construindo uma arquitetura que se afasta do fotografado. Território humano.

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(2010-2016), em exposição na Casa das Memórias, Viseu

Deste levantamento resultaram duas exposições de fotografia, Viseu: Identificação e Reconhecimento, e um conjunto de pequenos textos. Uma das exposições é no Museu Almeida Moreira, com fotografias de 1996, feitas no centro histórico de Viseu, numa revisitação de um trabalho antigo, Portugal – O Sabor da Terra. A segunda exposição é no espaço da Casa das Memórias, na rua Direita. São as fotografias deste levantamento fotográfico, numa mostra organizada em dois pisos: no piso térreo são apresentadas imagens da cidade de Viseu, em três grupos distintos, cidade histórica, cidade xx e cidade atual. No piso superior, em seis conjuntos distintos de fotografias, é mostrado o mundo rural do concelho de Viseu: rural equilibrado, rural habitado, rural religioso, rural perdido, conexões e natureza.

Viseu: Identificação e Reconhecimento (1996). Museu Almeida Moreira, Viseu. 2016

Viseu: Identificação e Reconhecimento (2010-2016). Casa das Memórias, Viseu. 2016


Duarte Belo (Lisboa, 1968) inicia, em meados dos anos 1980, o mais extenso e abrangente levantamento fotográfico conhecido do espaço português. Desde essa altura que, através de numerosos títulos publicados e exposições, sobre o tempo e a forma do território nacional, participa na divulgação da revelação de um país, da sua natureza geológica e coberto vegetal das paisagens, até à imensa complexidade das marcas deixadas no solo pelos gestos humanos que permanecem na terra ao longo de milénios e definem uma identidade coletiva. Este trabalho, continuado em mais de 700.000 quilómetros percorridos em estrada ou a pé, deu origem a um arquivo fotográfico de mais de 1.350.000 fotografias. Publicou mais 50 livros sobre o tempo e a forma do território português, dos quais se podem destacar Portugal – O Sabor da Terra (1997-1998), ou Portugal Património (2007-2008). Num aprofundamento progressivo do detalhe no levantamento de território, trabalha atualmente sobre espaços de montanha, troços de rios, áreas litorais, paisagens agrícolas ou periferias de cidades.

 

 

 

 

 

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