SHIFT – Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade: da construção de uma marca à consolidação de uma agenda científica

Por: Mónica Truninger

Durante o ano de 2021, o grupo de investigação Ambiente, Território e Sociedade iniciou o processo de criação de uma marca. Sentia-se falta de comunicar melhor para o público, académico e não académico, as atividades científicas do grupo, e siglas como ATS (Ambiente, Território e Sociedade) ou GiATS (Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade) não cobriam, de forma satisfatória, esta necessidade. Depois da realização de uma consulta aos membros do grupo e de se proceder à votação de um conjunto de palavras (algumas sugeridas pelos próprios membros, como por exemplo, SHIFT, SHARE, RESET, SHAPE, GROW), SHIFT foi a expressão escolhida. Com base nesta palavra – um verbo que orienta para uma ação dinâmica que sugere mudança, transformação, transição –, foi elaborado o logotipo do grupo.

Figura 1 – Logotipo do SHIFT: Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade.
Designer: Bárbara Barbedo.

Partindo da construção da marca SHIFT: Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade para o alinhamento de um conceito orientador de uma grande parte da agenda científica, multidimensional e interdisciplinar do grupo, façamos o seguinte exercício de decomposição. Comecemos pela missão do grupo tal como está explanada na página do ICS:

“O grupo de investigação Ambiente, Território e Sociedade (GI SHIFT) tem como missão desenvolver pesquisa inter-e-transdisciplinar, com base em análise crítica e reflexiva, para gerar conhecimento transformador das dinâmicas sociais, territoriais e de governança subjacentes a desafios socioecológicos; e dos caminhos de transição para sociedades mais justas, resilientes e sustentáveis.”

O conceito SHIFT vai ao coração do que o grupo faz. E porquê? Em primeiro lugar, porque a missão do grupo de gerar conhecimento transformador das dinâmicas sociais, territoriais e de governança orienta a pesquisa de muitos dos nossos membros para a ciência fundamental e, ao mesmo tempo, para o desenvolvimento teórico e empírico de conhecimento transformador. Isto é, este conhecimento junta de forma integrante o que de melhor se faz em cada disciplina, mas também o conhecimento interdisciplinar (buscando integrar as perspetivas das várias disciplinas tanto das ciências naturais como das sociais e humanas), bem como o conhecimento transdisciplinar, consolidando uma ligação forte com o mundo não académico (nomeadamente as empresas, os municípios, os departamentos governamentais, as escolas e os cidadãos).

Tenho ainda fresca na memória uma conversa informal com o inesquecível Professor Philip Lowe, que coordenou um dos programas interdisciplinares mais inovadores e ambiciosos do Reino Unido sobre economia rural [RELU], entre 2004 e 2013, no qual participei. Dizia Philip Lowe, num dos vários workshops interdisciplinares onde estive, que não é possível fazer boa ciência interdisciplinar sem se ser muito bom na nossa própria disciplina. E continuava: “Em cada equipa tens de encontrar a tua função: é possível ser um agregador (hub) ou uma ponte (bridge), e tanto os agregadores como as pontes são peças fundamentais para ciência interdisciplinar competente”.

De facto, o nosso grupo é de tal forma rico que encontramos estes dois papéis sem dificuldade. Investigadores excelentes na sua própria disciplina e que são um ‘porto seguro’ sempre que há incertezas, dúvidas, hesitações no conhecimento sobre um determinado assunto [Eles/Elas sabem sempre tudo!]. E os que fazem pontes, tendo a capacidade e humildade de baixarem as defesas e exporem as suas vulnerabilidades, hesitações e dúvidas constantes, porém avançando para territórios ‘desconfortáveis’ e ‘não familiares’ na descoberta de uma nova disciplina, área científica, temática, método de pesquisa ou trabalho de campo dos quais têm a coragem de dizer que sabem muito pouco ou nada. É evidente que estes papéis não são estanques; uma única pessoa pode negociar ao longo da sua carreira vários papéis, com vários degradés, umas vezes com ‘pinceladas’ de ‘agregador’ e outras com uma boa ‘trincha’ de ‘ponte’ e vice-versa.

Os perfis ecléticos também abundam no nosso grupo, provavelmente por força do contexto competitivo da ciência acelerada que fazemos e em que vivemos, onde a versatilidade e flexibilidade (para não dizer precariedade e incerteza!) são palavras de ordem. Mas é na confluência destes papéis e saberes que o conhecimento transformador se vai construindo, contribuindo muitas vezes para a mudança de formas de pensar, conceptualizar, informar e, até, de metodologicamente abordar as dinâmicas sociais, territoriais e de governança subjacentes a desafios socio-ecológicos, no espaço nacional e internacional. A ilustrar algum ecletismo metodológico e de terrenos de pesquisa, o grupo tem realizado trabalho de campo não só em Portugal e na Europa, como na América do Norte e do Sul; Médio e Extremo Oriente, ou África Subsariana e países da CPLP. As abordagens teórico-metodológicas combinam perspetivas macro e micro (quer estejam justapostas, integradas ou separadas), metodologias quantitativas e qualitativas, onde, aliado ao rigor e sistematização da recolha e análise robusta, investe-se na exploração de métodos inventivos e criativos (e.g. métodos audiovisuais e digitais; o corpo como ferramenta de recolha de dados sensoriais e cinestésicos). Esta procura por uma abordagem “multimodal” (video, fotografia, paisagens sonoras, instalação, performance, video-jogos — ou combinações destes) constitui, simultaneamente, ferramenta de pesquisa e formato de disseminação do grupo.

Em segundo lugar, encontramos no conceito SHIFT a capacidade para abarcar uma outra parte da missão do grupo que é mais interventiva e, de certa forma, marcada por uma orientação normativa da realidade onde se quer intervir. Mas esta orientação não segue uma cartilha cega e desatenta aos contextos onde atua. Pelo contrário, é uma normatividade que cultiva uma atenção detalhada aos contextos heterogéneos e compostos, e que tem a coragem de questionar, de forma reflexiva e crítica, os seus mais profundos e estruturais princípios normativos. Neste campo, uma boa parte do nosso trabalho trata de informar ou aplicar o conhecimento científico a iniciativas de investigação-ação, de participação, de colaboração, de co-construção de conhecimento com empresas, sociedade civil, a administração central e local na busca de caminhos de transição para sociedades mais justas, resilientes e sustentáveis. Mas sociedades mais justas, resilientes e sustentáveis para quem? E que premissas teóricas, metodológicas, epistemológicas e ontológicas estão na base da formulação das questões de pesquisa que informam o conhecimento transformador que, por sua vez, pretende melhorar a sociedade? Estas inquietações fazem parte de uma tensão normativa que é intrépida, atenta, crítica, mas… comprometida!

Neste ano letivo que se aproxima vamos iniciar um novo ciclo de seminários (organizado em parceria com o novo PhDShiftHub) dedicado à consolidação da agenda temática diversificada do SHIFT, que engloba as quatro áreas principais do grupo, a saber: 1) Ambiente, Ação Climática, Energia e Risco; 2) Transições Urbanas; 3) Transições Alimentares e 4) Envolvimento Público com Ciência e Tecnologia. Estes seminários vão servir para explorar estas temáticas através de perspetivas teórico-metodológicas plurais, bem como conceitos congéneres ao SHIFT, por exemplo, transição, transformação, reconfiguração, mudanças rápidas e lentas, utopias e imaginários futuros, dinâmicas das práticas sociais, resiliência, tendo em conta tanto os contextos de resistência ou manutenção do status quo como de mudança e inovação para sociedades mais justas, resilientes e sustentáveis.

No contexto em que vivemos de disrupção das nossas sociedades por causa da ‘agência’ compartilhada entre um vírus invisível a olho nu e as práticas humanas, estes debates não poderiam estar mais na ordem do dia. Esta reformulação do nome do grupo é apenas o mote para trazer à superfície uma outra necessidade latente: a busca dos caminhos de transição para ligações mais sólidas intra-e-inter grupos de investigação no ICS. O SHIFT convida a este trabalho de co-construção atento, reflexivo, crítico, mas comprometido, juntando ‘agregadores’ e ‘pontes’ neste esforço. Nos próximos tempos, publicaremos neste blogue os frutos desta consolidação da agenda científica do SHIFT.


Mónica Truninger, Socióloga e coordenadora do SHIFT Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Email: monica.truninger@ics.ulisboa.pt
Webpage: https://www.ics.ulisboa.pt/pessoa/monica-truninger

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