Urbanismo DIY e Right to the Future em Palermo: um livro

Por Simone Tulumello

No âmbito da World Urban Campaign e das atividades da preparação, lançamento e implementação da Nova Agenda Urbana, a ONU-Habitat tem vindo a promover uma série de eventos, chamados Urban Thinker Campus, definidos como “um espaço aberto para uma discussão crítica entre atores urbanos que consideram a urbanização uma oportunidade que pode levar a transformações positivas” (tradução minha do website).

O PUSH., laboratório de design baseado na cidade de Palermo e com larga experiência de projetos sobre mobilidade e fruição do património cultural, organizou já dois Thinker Campus nos últimos anos – o terceiro, Human Flows, dedicado a mobilidade e migração, será também em Palermo, em novembro de 2019.

O Urban Thinker Campus de Palermo de 2017 foi intitulado Right to the Future e dedicado à reflexão sobre o futuro da cidade de Palermo na perspetiva da Nova Agenda Urbana. Além de seminários, workshops e eventos com vários formatos, a componente central do Campus foi uma chamada aberta para propostas de intervenções concretas na cidade de Palermo, que foram depois objeto de discussão e reflexão durante os dias do evento. As 52 propostas recebidas ofereceram uma amplíssima gama de possibilidades, de perspetivas socioeconómicas (do empreendedorismo e competição, à partilha e colaboração), objetivos (culturais, sociais, económicos), escalas de intervenção (desde microprojetos até planos para a área metropolitana) e tópicos – entre outros, cultura, produção alimentar ou ainda circuitos e moedas para uma economia local e comunitária (ver a Figura 2).

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Figura 1. Screenshot do website do evento, https://utc.wepush.org/rtf/.

 

Uma seleção destas propostas constitui a infraestrutura de um livro, Right to the Future. Ideas Kit for the Future of Palermo, organizado por Salvatore Di Dio, Domenico Schillaci e eu próprio, que foi publicado, em italiano e inglês, pela editora Altralinea (aqui o índice e alguns conteúdos).

Em síntese, o livro oferece uma recolha de propostas inspiradas nas perspetivas do urbanismo Do It Yourself (DIY) e do urbanismo tático. Trata-se de dois movimentos caraterizados pela transformação do espaço urbano por mão de cidadãos e cidadãs – a diferença é que o urbanismo tático se carateriza por uma postura mais explicitamente política, assumindo-se como resposta ao descontentamento com o urbanismo dominante atuado pelo estado e pelo setor imobiliário. Todos os projetos se confrontam com uma realidade, a cidade de Palermo, caraterizada por uma história e uma trajetória peculiares: o seu urbanismo é caraterizado por inúmeras influências devidas às múltiplas dominações externas; o seu desenvolvimento económicos é caraterizado, como outros contextos do Sul da Itália, por uma trajetória história de desenvolvimento desigual relativamente ao Norte da Itália; por causa dum tardio fluxo de imigração, as últimas duas décadas são caraterizadas pela fixação de populações migrantes no centro histórico, que é hoje um contexto com uma alta complexidade e diversidade social e cultural.

Os projetos, e a cidade que é-lhe contexto, inspiraram-me algumas reflexões condensadas no texto que fecha o livro. Deixem-me, portanto, que eu termine este post com uma tradução para português de algumas dessas reflexões que, por um lado, poderiam ser inspiradas por outras experiências de urbanismo DIY e, pelo outro, espero que possam inspirar o leitor a descobrir o livro e as propostas para Palermo aí contidas.

Todos os projetos apresentados no livro estão alinhados com um ou mais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU; o que parece faltar é uma visão de um futuro no qual «todas as pessoas têm os mesmos direitos e o mesmo acesso aos benefícios e oportunidades que as cidades oferecem» (Nova Agenda Urbana). Noutras palavras, o livro apresenta muitos contributos pragmáticos, mas carece de uma visão “radical” e “política” – podemos até especular que os autores dessas propostas, em média muito jovens, estejam desencantados em relação às grandes visões típicas de ideologias que podem parecer-lhe vestígios do passado.

De facto, a ausência de pensamento radical é precisamente a crítica mais comum que é feita ao urbanismo DIY e ao urbanismo tático. Há alguns anos, Neil Brenner, ao comentar uma exposição sobre urbanismo tático organizada pelo MoMA (Nova Iorque), observou que o risco é que milhares de intervenções não cheguem a consolidar «massa crítica, imaginação política e visão sistémica», que são tão necessárias face aos desafios de hoje e de amanhã. A exibição do MoMA estava focada nas megacidades do Sul Global, onde a escala – mas não a natureza, na minha opinião – dos problemas é bastante diferente dos de ocorrem em cidades como Palermo. Porém, continuo a achar que a natureza dos problemas é a mesma e, em síntese, que essa natureza está enraizada nas relações socioeconómicas produzidas pelas dinâmicas do capitalismo global – uma reflexão que, em colaboração com Andrea Pavoni, tenho aprofundado na perspetiva da violência urbana. Se assim for, não há razão para pensar que abordagens parecidas possam ter impactos diferentes; ou seja, não podemos esperar que uma multiplicidade de ações possa tornar-se automaticamente numa mudança radical.

Mas não deixa de haver espaço para otimismo. É verdade que energias como as que estão apresentadas no livro, se não forem canalizadas para uma visão sistémica, não vão transformar-se numa força planetária; mas é também verdade que não há força planetária sem uma multiplicidade de energias. Sempre pensei que a possibilidade de mudança não virá de algum deus ex machina que se venha a materializar sabe-se lá de onde; mas que está enraizada na estrutura e no tecido das nossas cidades e sociedades. A questão, portanto, não é tanto a necessidade de criar possibilidades, quanto o construir redes e estratégias entre as possibilidades que já existem. E é precisamente ao pôr possibilidades em diálogo, por exemplo como fizeram este livro e o evento que o antecedeu, que podem emergir redes e estratégias, finalmente uma visão sistémica para o nosso direito ao futuro.

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Figura 2. Exemplo de projeto apresentado no livro.

Simone Tulumello é investigador auxiliar no Instituto de Ciências Sociais – ULisboa e membro da coordenação do Doutoramento em Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Lisboa.

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