Resiliência social e percepção dos impactos das alterações climáticas em Tacloban, Filipinas

Por Rita Marteleira

A República das Filipinas é um dos territórios mais vulneráveis aos impactos das alterações climáticas, devendo-se isso a factores como a localização geográfica, a intensa fragmentação em milhares de pequenas ilhas e uma distribuição populacional extremamente heterogénea que dificulta a implementação de medidas de adaptação. Este país tem sentido os impactos das alterações climáticas de forma significativa, através do aumento da temperatura média anual de 0,65°C (relativo ao período de referência de 1971-2000), da variabilidade do regime de precipitação – heterogénea no arquipélago, sendo algumas ilhas afectadas por cheias, outras por acentuados períodos de seca – e também do aumento da frequência e intensidade dos ciclones tropicais (PAGASA, 2011).

A cidade costeira de Tacloban, localizada na ilha de Leyte, região de Visayas, ficou mundialmente conhecida em Novembro de 2013 pela passagem do tufão Haiyan – o maior até hoje a atingir uma massa continental – que causou a perda de mais de seis mil vidas, outros tantos milhares de feridos e desaparecidos, e uma destruição sem precedentes. Após a catástrofe, Tacloban tornou-se o foco de operações de índole humanitária e ajuda internacional, que impulsionaram o realojamento de cerca de 40% da população num novo território a norte da cidade, situado a uma cota superior e supostamente a salvo da sobrelevação da água do mar – que se revelara a fonte de maior destruição do Haiyan. No entanto, mais de cinco anos passados após a catástrofe, por motivos de mau planeamento e pobre articulação entre as entidades envolvidas, esta nova zona carece ainda de abastecimento de água, o que tem levado ao seu abandono por parte das famílias realojadas, que reocuparam a linha costeira da antiga cidade e vivem assim extremamente vulneráveis às consequências de um novo ciclone (Santos et al., 2016).

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A vulnerabilidade das habitações à sobrelevação da água do mar na eventualidade de um novo tufão em Tacloban (Fevereiro de 2018). Fonte: Autora

De acordo com as projecções da PAGASA (Philippines Atmospheric, Geophysical and Astronomical Services Administration), para a região de Visayas, prevê-se um acentuar da sazonalidade da precipitação em 2020, com aumentos de até 9,5% da precipitação trimestral durante a monção de sudoeste, em Junho, Julho e Agosto, e um decréscimo de quase 9,0% para os meses de Março, Abril e Maio. Contudo, neste último trimestre pode atingir-se uma redução de quase 20,0% do volume precipitado num futuro cenário de 2050. Nos mesmos meses, espera-se um aumento da temperatura média de cerca de 2,2°C, o que tenderá a agravar a escassez hídrica, como recentemente comprovado por Marteleira et al. (2018).

No entanto, não existe, à data, quer por parte do governo local quer da empresa responsável pelo abastecimento de água em Tacloban, uma estratégia clara de adaptação a estes cenários de menor disponibilidade de água por forma a conferir à cidade uma maior ‘resiliência’ neste sector.

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A precariedade do sistema de abastecimento de água em Tacloban (Março de 2016). Fonte: Autora

Tendo evoluído desde a sua definição original, da autoria de Holling (1973), que usou o termo como uma medida da capacidade de os ecossistemas absorverem mudanças ambientais, não parece haver ainda uma definição consensual sobre o conceito de resiliência, que aparece aplicado com significados por vezes bastante distintos. Presentemente, a quantificação da resiliência tem vindo a ganhar popularidade nas discussões de desastres naturais e alterações climáticas, especialmente nas que se referem à adaptação. Ultrapassando a simples medida da robustez das infraestruturas (chamada de hard resilience por autores como Proag, 2014), consideram-se hoje também os aspectos sociais e de capacidade de regeneração dos ecossistemas (definidos então como soft resilience). De facto, de acordo com Cutter (2008), a resiliência de uma comunidade face a um determinado risco pode ter diversas origens, pelo que é essencial ter uma visão holística sobre a mesma.

No contexto de pós-catástrofe em Tacloban, em Março de 2016, foi assim conduzido (por investigadores do Oscar Manuel Lopez Center, um instituto filipino de investigação em ciência climática), um inquérito junto de 282 famílias residentes na cidade. Desta forma, procurou quantificar-se a componente social da resiliência através da percepção desta comunidade acerca dos impactos das alterações climáticas e da sua resiliência face aos mesmos.

Dos resultados obtidos, destaca-se a muito expressiva percepção das alterações do clima (com 75,2% dos respondentes a afirmarem ter conhecimento do fenómeno), embora uma percentagem menor lhes atribua causas antropogénicas (57,1%). Relativamente aos impactos, grande parte dos respondentes (95,7%) revelou sentir-se mais vulnerável à ocorrência de novos ciclones tropicais – o que era um resultado expectável, considerando a proximidade temporal do tufão Haiyan à data de realização dos inquéritos.

Cerca de 62,4% apontaram ainda a alteração dos regimes de precipitação como um factor de preocupação. No entanto, enquanto 44,3% dos respondentes revelou que as cheias constituem um factor de risco considerável, apenas 14,5% consideraram as secas uma ameaça ao seu bem-estar. Esta disparidade poderá ser explicada pelas experiências vividas por estes residentes: devido ao deficiente (ou, em algumas áreas, mesmo inexistente) sistema de drenagem de águas pluviais da cidade, as cheias são um fenómeno mais evidente. Concluiu-se assim que esta comunidade não terá percepção da já comprovada escassez hídrica de que sofrerá Tacloban num cenário de alterações climáticas, encontrando-se muito mais desperta para os impactos extremos, como a ocorrência de novos tufões, do que para os impactos de longa duração já mencionados. De facto, apenas 11,3% dos respondentes afirmaram tomar medidas de poupança de água para este efeito, embora 55,0% tenham sublinhado o abastecimento de água como o sector prioritário a ser melhorado por forma a conferir-lhes uma maior resiliência.

Existe assim, em Tacloban como em muitas outras cidades de elevado índice de vulnerabilidade às alterações climáticas, a necessidade premente de sensibilização das populações para os seus verdadeiros impactos. Apenas com o envolvimento de todos os agentes locais – incluindo entidades governamentais, intergovernamentais ou do sector privado, e também com a participação activa de uma população bem informada – se pode traçar o caminho para a construção de comunidades verdadeiramente resilientes.


Rita Marteleira é doutorada em Alterações Climáticas e Políticas do Desenvolvimento Sustentável, no ICS-ULisboa.

*Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico.

 

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One thought on “Resiliência social e percepção dos impactos das alterações climáticas em Tacloban, Filipinas

  1. Gonçalo Silva 6 Março 2019 / 7:04 pm

    Excelente análise!

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