Jogos de tabuleiro sobre alterações climáticas: um meio para materializar conceitos, impactos, políticas e soluções

Por Mônica Prado

Jogos sobre alterações climáticas ou jogos climáticos são definidos como “jogos e simulações em que alterações climáticas são o tema central e os quais têm foco nos processos (naturais), no papel dos sistemas humanos e nos potenciais impactos. A definição é dos autores Jason Wu e Joey Lee em artigo publicado na Nature Climate Change, em 2015, em que realizam revisão de literatura de jogos sobre alterações climáticas. Esta revisão de Wu e Lee foca em formatos de jogos e na avaliação de exemplos representativos, ao invés da abordagem descritivo-analítica das duas revisões anteriores, a primeira realizada em 1997 e a segunda em 2013.

A primeira revisão abordou critérios para o sucesso de jogos digitais de simulação, a segunda considerou questões de conteúdo e a terceira revisão abordou formatos e o potencial para participação cívica do cidadão. Estas revisões sobre o inventário de jogos climáticos listam mais de 80 jogos de tabuleiro e/ou digitais, sendo que alguns foram criados como iniciativas de curto prazo e outros ainda estão disponíveis em plataformas digitais e/ou em sites para comercialização. Todas as três revisões apontam que os jogos climáticos são meios de comunicação, recursos educacionais e ferramentas para engajamento cívico.

De acordo com a segunda revisão publicada em 2013, “80% dos jogos têm como tema a mitigação, menos da metade se concentra na adaptação e muito poucos enfatizam ou tentam ensinar as bases biofísicas das alterações climáticas – climatologia, gases de efeito de estufa e efeito de estufa, etc.. Os autores destacaram dois jogos listados nas revisões: Game Framework for CO2 Issue e Keep Cool, como exemplos de jogos que buscam abordar potenciais problemas de concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, ainda que o ethos não seja a base biofísica das alterações climáticas. CO2 Issue e Keep Cool ligam carbono a combustíveis fósseis e os jogadores devem trabalhar em torno das demandas de energia e emissões, e encontrar uma maneira de cooperar e negociar ao invés de prosseguir de modo independente, o que pode resultar na tragédia dos comuns (ênfase do CO2 Issue) ou no problema do free-rider (ênfase do Keep Cool). Tragédia dos Comuns e Free-Rider Problem (Problema do Parasitismo e/ou Aproveitamento de Situação) são teorias econômicas que buscam explicar o conflito entre os interesses individuais e o uso de um bem comum de recurso finito, e o ato de aproveitar de benefícios do uso de um bem comum sem pagar ou contribuir para seu provimento ou conservação, respetivamente.

CO2 Issue é um esboço, um croqui, uma ideia para desenho de produto, e foi concebido em 1983, em âmbito acadêmico, na Áustria, e hoje é considerado o primeiro jogo sobre alterações climáticas, embora nunca tenha sido materializado e transformado em produto. Keep Cool é um jogo de tabuleiro e foi criado em 2004, também em âmbito acadêmico, na Alemanha. É considerado o jogo climático mais bem-sucedido dentro da literatura, porque alcançou um nível comercial com 6.000 cópias já vendidas e por ter lançado, em 2009, o subproduto Keep Cool Mobile. O jogo Keep Cool recebeu, em 2006, prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) dentro da iniciativa da Década das Nações Unidas sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável.

Em novembro de 2014, no âmbito do programa doutoral Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Lisboa – Instituto de Ciências Sociais (ICS-ULisboa), foi criado o Aventura Climática©: um jogo de estratégia para manter o efeito de estufa em equilíbrio, o qual pertence à esfera da Ciência do Clima, diferente do esboço CO2 Issue e do jogo Keep Cool, que pertencem às esferas da Economia e da Política do clima, considerando narrativa, objetivos e desafios. Aventura Climática tem propriedade de Direitos de Autor com registro na Inspeção-Geral de Atividades Culturais da Direção de Serviços de Propriedade Intelectual (IGAC-DSPI), Lisboa, Portugal, sob o número 738/2015, com data de 19 de fevereiro de 2015. A primeira prototipagem e as duas primeiras fases de desenvolvimento do jogo de tabuleiro Aventura Climática foram apresentadas em forma de Pôster, em julho de 2015, na Conferência Our Common Future under Climate Change.

Foto 1 Poster Paris 2015
Apresentação Poster, Paris, Julho 2015, Conferência Our Common Future.

Aventura Climática© é um jogo de salão em que o participante é uma peça do jogo, pois como peão da equipa caminha sobre o tapete do jogo carregando balões (moléculas de carbono) numa aventura pela atmosfera. Na versão tabuleiro, o peão é representado por um avatar que se move pelas casas do jogo. A equipa tem um líder e os demais participantes interagem entre si para responder a perguntas e para tomar decisões sobre como prosseguir na aventura para sair da atmosfera Em Equilíbrio. O ethos do Aventura Climática relaciona atmosfera e carbono e, com isso, coloca os jogadores em posição de refletir sobre o problema das alterações climáticas, que resulta da intensificação do efeito de estufa natural por conta do excesso de emissão de carbono de causa antropogênica.

Tanto Aventura Climática como Keep Cool são destinados a serem jogados em pequenos grupos, permitindo interação intensa e comunicação face-a-face entre os jogadores. Klaus Eisenack, autor de Keep Cool, considera que estas características “são uma forma mais adequada para simular as negociações climáticas do mundo real”, em artigo escrito em 2012. No caso de Aventura Climática©, a autora líder, doutoranda do ICS-ULisboa, Mônica Prado, entende que essas características, juntamente com os balões que o peão transporta durante a sua jornada pela atmosfera, criam a aproximação necessária entre o conceito abstrato e a realidade do mundo vivido para a compreensão do efeito de estufa natural, dos impactos da emissão excessiva de carbono e da importância da atmosfera para a vida na Terra.

Foto 2 Terceiro Teste 2017
Participantes no Terceiro Teste do jogo Aventura Climática, em Outubro 2017.

O experimento – Aventura Climática© – contou com quatro fases de desenvolvimento e três testes, e utilizou Design Thinking como metodologia para a construção do produto, que compreendeu criação de maquete-arte, prototipagem, pesquisa bibliográfica e documental, consulta a pares, observação direta, discussão coletiva e aplicação de questionários de avaliação. A concepção do jogo Aventura Climática se sustenta num tripé formado por uma base científica (Ciência do Clima), uma base filosófica (Ética do Clima) e uma base informativa (Educação do Clima).

Esse tripé é referência para a composição das cartas, que são elementos-chave da mecânica do jogo, e se alinham aos atributos do jogo. Um atributo é ser informativo sobre o conteúdo das alterações climáticas e sobre as soluções para enfrentar os problemas decorrentes. Outro atributo é aplicar o princípio ético de que emissores tenham a responsabilidade moral de reduzirem as suas emissões à sua justa parte. Um terceiro atributo é incentivar o processo cooperativo de tomada de decisão de modo a manter a concentração de carbono na atmosfera em equilíbrio.

Ao todo são 54 cartas, sendo duas cartas jokers (Carbono), cinco cartas Bónus, cinco cartas Penalidade, e 42 cartas de conteúdo (Pergunta & Resposta). As duas cartas Carbono são estacionárias no tabuleiro e representam Momentos de Ponderação, no qual o líder, o peão e os integrantes de cada equipa, reunidos, discutem como estão prosseguindo na jornada e tomam decisão de como avançar para passarem pelo Portão de Saída da atmosfera, carregando uma quantidade de balões (carbono) que os mantenham Em Equilíbrio. As cartas Bónus e Penalidade são cartas de sorte que são retiradas aleatoriamente do monte de cartas misturadas com as de conteúdo. E, como indicam os nomes, correspondem a facilidades e a dificuldades oferecidas às equipas para avançarem pelas casas do tabuleiro. As 42 cartas Pergunta & Resposta refletem as diretrizes do Artigo 6 da Convenção-Quadro para as Alterações Climáticas (UNFCCC), que diz que educação do clima deve: (i) centrar-se na Ciência do Clima, (ii) estabelecer sinergia com as convenções-irmãs (Biodiversidade e Desertificação) e (iii) relacionar as alterações climáticas com o desenvolvimento sustentável e a sustentabilidade. Quanto à sustentabilidade, a referência são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), também chamados de Objetivos Globais, que constituem o corpo da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, aprovada pelas Nações Unidas, em 2015.

Aventura Climática© tem como eixo organizador o desafio de manter-se Em Equilíbrio. No jogo, cada equipa utiliza balões para materializar, a nível tátil, a concentração de carbono na atmosfera que fará o peão da equipa experimentar frio ou calor durante a aventura pelo mundo da atmosfera, conforme a quantidade de balões (carbono) que carrega em sua veste, pois carbono está associado à regulação da temperatura do planeta Terra à superfície. Durante a jornada pela atmosfera, os participantes adquirem e descartam balões conforme utilizam as cartas Bónus, Penalidade e Pergunta & Resposta. Ainda para sustentar esse eixo organizador, os balões também permitem materializar a nível cognitivo (mental) soluções necessárias que mantenham a concentração de carbono na atmosfera em patamares compatíveis com a habitabilidade do planeta. Essa materialização do conceito abstrato na realidade do mundo vivido se apresenta nos Momentos de Ponderação, quando as equipas necessitam tomar decisões coletivas sobre como manter-se Em Equilíbrio para chegarem ao Portão de Saída da atmosfera.

Foto 3 Maquete Arte Maio 2015
Maquete-arte para criar o tabuleiro e simular as equipas durante o jogo.

Uma versão mercadológica do jogo Aventura Climática© deve estar disponível no fim de 2018 de modo que interessados possam aplicá-lo em ambientes públicos e diversos como as atuais casas e bares, que utilizam ludologia como atrativo para clientes, ou em ambientes de capacitação, treinamento e planeamento de organizações privadas, públicas e não-governamentais, ou em ambientes educacionais (formal, não-formal e informal) ou até para o público em geral interessado em soluções individuais e coletivas para os problemas das alterações climáticas nas cidades em que residem. As cartas de conteúdo do Aventura Climática© podem ser customizadas para refletir a necessidade de informação e medidas de adaptação e mitigação necessárias localmente.

O conteúdo deste post é resultado de investigação que integra a dissertação doutoral sobre o experimento Aventura Climática©: um jogo de estratégia para manter o efeito de estufa em equilíbrio. Relatório de Progresso sobre o andamento da dissertação foi publicado pelo ICS-ULisboa, em 2017, na categoria Estudos e Relatórios ICS (ISSN 2183-6922).


Mônica Prado é doutoranda do Programa Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável do Instituto de Ciências Sociais – Universidade de Lisboa (ICS-UL). Contato: pradoigrejamonica@gmail.com

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