Um americano em Paris

Por Luísa Schmidt

Não foi surpresa. A desvinculação dos Estados Unidos da América do Acordo de Paris tinha sido anunciada e está em linha com a lamentável atitude política da fação extremista que tomou conta do Partido Republicano nos EUA.

A figura que a representa – Donald Trump – tentou fazer passar a ideia de que não está contra um Acordo, mas que pretende negociar os termos de modo mais favorável à América.

Trump_climate_change_denial_CREDITJulia-DeSantis_Flickr
Protesto nos EUA contra Trump. Fonte: Julia DeSantis/Flickr

É um logro. A América é o país que mais emissões lançou para a atmosfera durante mais tempo. Querer negociar uma posição mais favorável para si é não só moralmente inaceitável como inviável. O mundo não é um subúrbio da América e os outros países não são uma ralé que o poder americano trata conforme entende.

O mundo é a comunidade dos seres humanos no seu planeta único e o Acordo de Paris foi não só um acordo sobre as emissões, mas também um acordo entre os humanos para se salvarem, salvando o planeta onde existem. Não foi um torneio entre musculaturas políticas para triunfo do mais forte.

Este é o ponto mais inquietante da decisão facciosa da atual Casa Branca: o ‘suprematismo’ americano e o respetivo delírio de que a América se pode salvar sozinha e o resto do mundo que se amanhe.

Esta decisão isola a América, aprofunda o seu declínio e mascara isto por detrás da euforia que lhe dá o gesto afirmativo de poder. É tudo de muito mau augúrio. A começar para a própria América, minada que está por gravíssimos problemas de divisão interna com tremendos reflexos sociais e perante uma grave vulnerabilidade aos problemas que se prepara para agravar com esta decisão presidencial. Uma lástima, portanto.

A primeira e mais direta consequência negativa da decisão destes radicais que tomaram a presidência dos EUA será, segundo o instituto alemão Climate Analytics, o potencial aumento das emissões de 3,5% nos Estados Unidos e respetivo aumento da temperatura global, desencadeando a espiral de consequências climáticas ruinosas para inúmeras sociedades e sistemas ecológicos no mundo, incluindo a própria sociedade americana e o seu património ambiental.

A segunda consequência será unir o resto do mundo em torno do projeto global que o combate às alterações climáticas representa, o que implicará quase que inevitavelmente a ascensão liderante da China em detrimento dos EUA.

Por outro lado, também sublinhará o papel da Europa no plano científico, técnico e, o que é mais importante, moral – o que já não acontecia há muito tempo e sobretudo desde os colonialismos.

Terá ainda como consequência uma renovada mobilização do interesse público para a questão das alterações climáticas e das energias renováveis, o que não deixa de ser uma espécie de ‘efeito perverso’ positivo. Vejam-se as inúmeras reações despoletadas um pouco por todo o mundo, a começar pela própria América, onde 400 cidades já se comprometeram a reduzir as emissões de carbono, 30 das quais pretendem fazer uma transição para energia 100% limpa na próxima década… Onde Elon Musk (da Tesla) e Bib Iger (da Disney) deixaram o conselho consultivo da Casa Branca em protesto. Onde choveram as críticas de responsáveis pela Google, Microsoft, Twitter, Apple e Facebook, cujo presidente, Mark Zuckerberg sintetizou bem o que está posto em causa: “Deixar o Acordo de Paris é mau para o ambiente, é mau para a economia e coloca o futuro das nossas crianças em risco”.  

Acresce que esta atitude de Trump põe inclusivamente em convergência, e até em aliança, entidades tão díspares como ONGA, empresas, deputados, artistas, cientistas… enfim, forças da sociedade civil – gerando aquilo que o sociólogo Ulrich Beck designa como ‘fenómeno de subpolítica’ – que ocorre quando entidades que não estão orientadas umas para as outras se unem em torno de um desígnio comum.

Por fim, esta decisão da atual Casa Branca gera também uma dinâmica de solidariedade com a maioria do povo americano, que se vê arrastado por decisões que não queria ver tomadas, como aliás bem o manifestou no voto presidencial, e cuja perplexidade só tem paralelo com a difícil situação a que forças politicas congéneres conduziram os ingleses nas últimas eleições.

A decisão que o Presidente dos EUA anunciou no dia 1 de junho de 2017 ficará na memória pela sua ambivalência. Por um lado, uma vergonha desgostante. Mas, por outro, e como efeito colateral, também o sinal de um relançamento de dinâmicas públicas mundiais baseadas no reconhecimento da ética de responsabilidade que todos temos uns perante os outros.

A decisão não podia ter sido mais lamentável; a perspetiva é, no entanto, a de esperança na Humanidade e no seu futuro.


Luísa Schmidt é socióloga e investigadora principal do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

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One thought on “Um americano em Paris

  1. Luis Balula 21 Junho 2017 / 7:06 pm

    Sim, o bom senso há-de prevalecer! Bom texto Luísa.

    Gostar

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