Fazer experiências com a divulgação de um projeto – Parte II: a Zine

Por: Jussara Rowland, Ana Delicado, e Clara Venâncio

Zines Académicas: Porquê e para Quê?

No nosso post anterior, sobre a relevância de experimentar novos formatos de disseminação, debruçámo-nos sobre a criação de um desdobrável, em formato de “quantos queres”, no âmbito do projeto de investigação Engage IoT – Envolvimentos sociais com a Internet das Coisas (EXPL/SOC-SOC/1375/2021), mencionando a sua articulação com uma zine. Mas, afinal, o que são as zines?

As zines, termo derivado de fanzines e ascendente de e-zines, são publicações não oficiais, produzidas de forma independente, mais ou menos artesanal, sobre temas variados. Originadas nos anos 1930 junto dos entusiastas da ficção científica, as zines ganharam sucesso a partir dos anos 1970 nos movimentos ativistas punk e da música alternativa, e dos anos 1990 no movimento underground feminista Riot Grrrl. Tradicionalmente associadas a culturas DIY, movimentos sociais e artísticos, as zines têm como principal função a disseminação de ideias e a partilha de informações fora dos circuitos convencionais.

Na academia, as zines têm recebido maior atenção e reconhecimento nos últimos anos. As suas características únicas, assentes na informalidade, multimodalidade e flexibilidade, tornam-nas relevantes para diversos fins:

A relevância e popularidade das zines levou à criação de inúmeros repositórios e arquivos digitais que agregam zines de diferentes épocas e origens, alguns dos quais na áreas das ciências, como o Small Science Collective e o GEOZONe – Geography Zine Organizing Network.

Mais exemplos podem ser encontrados aqui:

Figura 1. Padlet que reúne informação sobre zines académicas.

Uma zine sobre IoT

Como foi dito no post anterior, o tema da Internet das Coisas (IoT) tem uma materialidade que se presta a experimentar novas formas de divulgação. Se os principais resultados do projeto já tinham sido plasmados numa Research Brief para um público não académico, fazer uma zine dava-nos uma oportunidade para explorar de forma diferente temas específicos de uma forma mais livre, mais reflexiva e mais visual. E em inglês, de forma a chegar a um público mais alargado.

Assim, a zine começa com três conceitos básicos que configuram a arquitetura teórica da investigação feita (Internet das Coisas, imaginários sociotécnicos e prática social) e uma explicação breve das intenções da zine. Em duas páginas mostramos como a metodologia articulou estes conceitos e como a zine faz parte de uma estratégia de divulgação. De seguida, falamos do ecossistema da IoT e dos seus utilizadores. Depois aprofundamos os três tópicos que nos suscitaram mais inquietações ao estudar esta tecnologia: os bons e maus usos, o impacto ambiental e a dimensão de género. No final, fazemos uma reflexão sobre a própria zine e apresentamo-nos. À laia de ilustrações, temos os desenhos da nossa colega Clara Venâncio, citações de entrevistas, títulos de artigos de jornal e fotografias.

Figura 2. Capa da zine.

A concretização – algumas opções gráficas

Com a estrutura da zine já delineada e com a informação distribuída pelas dezasseis páginas, começámos a trabalhá-la graficamente. A criação de uma zine permite-nos ter uma maior liberdade gráfica, sem termos necessariamente de respeitar normas. Podemos optar por diferentes fontes tipográficas, com dimensões distintas, por margens que variam de página para página, por imagens e textos desalinhados e cores que se destacam. Esta zine foi construída digitalmente no Adobe InDesign tirando proveito das ferramentas que atualmente temos disponíveis; no entanto, é inspirada na irregularidade e expressividade das zines manuais, onde imagens, textos e letras eram recortados e colados, criando uma composição visual capaz de comunicar mensagens e ideias. Ao criarmos a nossa zine, tínhamos apenas uma regra de partida: a informação tem de ser legível. Para além da legibilidade, foi possível “brincar” com os conteúdos e dispô-los de um modo intuitivo e experimental, tendo sempre presente que esta tem de funcionar como objeto de comunicação.

Optámos por fontes tipográficas, nos títulos e nos balões de falas, já utilizadas anteriormente no “Quantos Queres” do projeto. Para além das fontes, fomos buscar as personagens e as cores azul e vermelha. Contudo, foram aplicadas variações destes tons, fotografias e novas fontes, tornando a zine num objeto gráfico com uma expressão própria e distinta do “Quantos Queres”, mas ligado a ele simultaneamente.

As fotografias foram manipuladas no Adobe Photoshop para fazer o efeito “Dual-Tone” (dois tons), onde se aplicaram variações da cor azul e vermelha, invertendo os tons claros e escuros em algumas delas. Estas fotografias surgem como fundo em praticamente todas as páginas da zine, com exceção das quatro páginas que apresentam esquemas e infografias, de modo a permitir um maior destaque e visibilidade dos mesmos. As infografias foram criadas no Adobe Illustrator recorrendo ao desenho vetorial. Todas as ilustrações, incluindo os desenhos utilizados nas infografias, foram criadas manualmente e depois digitalizadas e vetorizadas com recurso a este programa.

E agora o que fazemos à zine?

Para já, está disponível no site do projeto, no Zenodo e foi enviada para o Repositório da Universidade de Lisboa. Em maio de 2024, apresentámo-la no Congresso SciComPT em Braga, na zona de demonstrações, tendo suscitado bastante interesse. Em junho de 2024, foi partilhada com os alunos do Módulo de Métodos Criativos do MetodICS. Em julho, iremos dinamizar um workshop no congresso da EASST em Amesterdão sobre formas inovadoras de divulgação de ciência, onde prevemos discutir o processo de criação da zine. No futuro, tencionamos continuar a divulgá-la, debatê-la e a aprender com ela.


Jussara Rowland é socióloga e investigadora em pós-doutoramento do ICS-ULisboa.

Ana Delicado é socióloga e investigadora principal do ICS-Ulisboa.

Clara Venâncio é designer e estudante de doutoramento na Faculdade de Belas Artes Universidade do Porto.

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