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Clima e secas em Cabo Verde

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Por Luzia Oliveira

2017 foi particularmente quente em várias partes do globo e, por conseguinte, um ano em que as emissões de CO2 na atmosfera atingiram um novo record, tendo atingido no mês de maio 410 partes por milhão (noaa.gov).

Para além das altas temperaturas, ainda se registaram em muitos países outros fenómenos extremos como as secas, incluindo Portugal e Cabo Verde, fazendo com que os decisores políticos tenham adotado medidas específicas para enfrentar o período crítico que atravessam. Esta situação chama-nos a atenção, mais uma vez, para o facto de as alterações climáticas serem um problema sério e que exige de cada um de nós, a diferentes níveis e escalas, sermos pró-ativos no seu combate.

Portanto, no arquipélago de Cabo Verde registou-se mais um ano de seca severa, depois de a população ter recebido a informação de que 2017 seria um ano confortável em termos de chuva (rtc.cv; asemana.publ.cv). Contudo, e contrariamente às previsões, até ao momento ocorreu apenas uma única precipitação, que deu para fazer a sementeira e a primeira monda, mas que foi insuficiente para garantir o mínimo do ano agrícola (figura 1), o pasto para os animais e a água para alimentar os aquíferos.

Figura 1: Cenário desolador dos campos agrícolas (Órgãos, ilha de Santiago, 13 de dezembro de 2017, foto da autora)

Para os cabo-verdianos não se trata de um ano invulgar, já que têm vivido frequentemente episódios de secas, com impactos marcantes principalmente no setor agropecuário. Por exemplo, em 2015 houve uma grande seca que vitimou uma quantidade significativa de gados (caprino e bovino), a produção agrícola foi praticamente nula em todas as ilhas e a população teve problemas em ter água disponível para as suas atividades.

Como encarar as previsões das chuvas para Cabo Verde?

Em relação às previsões das chuvas para o arquipélago, é preciso dizer que, por enquanto, vamos ter de continuar a contar com esta incerteza porque:

Como compreender a variabilidade climática em Cabo Verde?

O clima do arquipélago é o resultado da sua localização geográfica no meio do oceano Atlântico e nas proximidades do deserto de Sahara, na extremidade ocidental da faixa do Sahel, a sul do deserto do Sahara, o que o inclui numa vasta zona africana de clima da área Saheliana árida e semiárida (figura 2).

Figura 2: Localização de Cabo Verde. Fonte: (https://eros.usgs.gov/westafrica/node/147)

O clima é do tipo tropical seco, com duas estações distintas: uma curta estação das chuvas, que vai de julho a setembro, e os restantes 9 meses, que são dominados pela seca. As precipitações são caraterizadas essencialmente por chuva que cai em grande parte sob a forma de aguaceiro. Nota-se também que este período de chuva está ficando cada vez mais curto. Na verdade, nos últimos 10 anos as primeiras chuvas têm caído raramente no mês de julho, mas sim em agosto, embora nesta altura muitos agricultores já tenham tudo a postos para iniciar o ano agrícola, ficando, portanto, de olhos sempre no céu, esperançosos à espera da chuva. Recorda-se que, em 2016, as primeiras chuvas aconteceram nos finais de agosto, mas estas foram suficientes para garantir um bom ano agrícola, pastos para os animais e água para o lençol freático, bem como para as barragens.

Pode afirmar-se que este curto período das chuvas possui uma grande irregularidade espácio-temporal, dado que em zonas com condições geográficas semelhantes é possível ocorrerem valores pluviométricos diferentes, do mesmo modo que dentro de um determinado mês podem registar-se quantidades muito variáveis de chuvas. Esta variabilidade também se aplica aos períodos interanuais.

O gráfico que se segue dá-nos uma ideia de como têm sido as precipitações nos últimos 77 anos (1941- 2016) numa estação meteorológica que, segundo o autor, é representativa de Cabo Verde e inclui dados fiáveis.

Figura 3: Gráfico fornecido gentilmente por Antonino Pereira (agrometeorologista do INMG – Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica)

Observa-se então uma grande variabilidade pluviométrica interanual durante este período, em que, dos 77 anos, somente 19 foram húmidos ou excedentários, cerca de 29 foram normais ou médios e 29 foram secos ou deficitários.

As precipitações no país podem ser explicadas essencialmente por três fatores:

  1. A deslocação da FIT (Frente Intertropical) é um dos principais fatores. É que, com o movimento dos ventos alísios do norte e do sul em direção ao equador, forma-se uma Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que se vai estreitando à medida que se afasta do equador, para dar lugar a um eixo denominado por FIT. Então, a deslocação da FIT sobre o continente africano, mais para o norte ou para o sul do Sahel, é que determina o início, a duração e o regime da precipitação nesta região, incluindo também para o arquipélago de Cabo Verde. Quando a FIT vai mais para norte causa fortes chuvas na zona do Sahel, mas quando está mais para sul origina duras secas.
  2. Outro fenómeno que também tem grande influência no regime das precipitações em Cabo Verde são as perturbações atmosféricas das ondas do Leste. Em altitude é dominada pelo fluxo do Leste, com valores máximos da intensidade do vento. Caracterizados pela localização do jato africano de leste (JAL) e do jato tropical de leste (JET), à superfície formam-se sistemas depressionários numa área a sul do arquipélago, área essa conhecida como sendo de ciclogénese ativa. Portanto, são as tempestades que, ao aproximarem-se do arquipélago, trazem as chuvas.
  3. Um outro fator que contribui para a precipitação no país é o relevo e a exposição geográfica das ilhas em relação aos ventos alísios. É geralmente nas ilhas montanhosas que se registam maiores quantidades de chuvas.

Em suma, pode dizer-se que Cabo Verde sempre sentiu os impactos das alterações climáticas, manifestados através das secas cíclicas, e que, por estar localizado na zona do Sahel, o risco de vir a sofrer com as secas é enorme. Por isso, é necessário que a população esteja sempre preparada e consciencializada para enfrentar este fenómeno. Daí que se sugira a adoção de políticas públicas consistentes, de médio e longo prazo, com uma forte componente de mitigação das secas. Neste contexto, o envolvimento do Estado, das escolas e de toda a sociedade civil é de extrema relevância.


Luzia Oliveira é doutoranda do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, no Programa Doutoral de Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável. Email: luliveira2@gmail.com

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